quinta-feira, 22 de março de 2012

Retrô

- Abra a porta, Mário Benjamin! Ou eu vou chamar a polícia!

- Já disse que não vou abrir!

- Quero negociar os nossos bens de forma civilizada!

- Já dividimos tudo. Ainda por cima, você levou vantagem... O que você quer mais?

- Eu quero que você abra a porta da minha casa!

- Essa não é mais a sua casa! Já faz dois meses!

- Estou tentando ser cordial. Se você não abrir eu vou abrir, Mário Benjamin!

- Troquei a fechadura.

- Como teve coragem? Então eu vou arrombar!

- O que você quer na minha casa???

- O que eu quero na MINHA casa? Como você ainda tem a ousadia de perguntar! Abra essa porta!

- Não vou abrir! Louca desvairada! E não adianta descer as escadas correndo e gritando. Nem chamar o porteiro. Você está no livro de ocorrrências do prédio.

- Como assim, Mário Benjamin?

- Você foi proibida de vir no quinto andar. Eu e os vizinhos fizemos um carta ao síndico. Você foi um dos assuntos da última reunião de condomínio. Aliás, como conseguiu subir?

- Eu tenho os meus métodos e isso não é da sua conta. Abra essa porta!

- Você não vai ganhar com os seus caprichos!

- Tudo bem. Não quer abrir, Mário Benjamin? Tem certeza? Abra essa porta ou você e os seus vizinhos serão contaminados em questão de segundos.

- Contaminados?

- Sim, honey. Contaminados. Ou você abre e me deixa pegar o DVD do Nascido para matar
ou vai morrer sufocado.

- Esse filme eu não vou te devolver nunca! Nunca! Tudo menos devolvê-lo.

- Ah, é? Queridinho, abra essa porta! Caso contrário, Mário Benjamin, você vai se arrepender amargamente de brigar com sua terceira ex-mulher!

- O que você tem na mão? Estou vendo pelo olho mágico.

- Já disse que pode se arrepender...


- Diga logo o que tem dentro desse vidro na sua mão direita!

- Bordetella Pertussis.

- Quem?

- Bordetella Pertussis, Mário Benjamin!

- O que é isso?

- A bactéria da coqueluche, honey. Se não abrir, eu vou arrombar essa porta e espalhar toda a secreção da minha tosse em você!  Para completar, vou te dar um beijo na boca daqueles irresistíveis, Mário Benjamin! A sua vizinhança também vai pagar por isso. E aí? Abre ou não abre?

- Não abro. Balela. Essa doença já foi erradicada.

- Doce ilusão, honey! Mito. A coqueluche voltou com tudo!

- Ela não dá em adultos. Você está surtada.

- Mário Benjamin, não fale bobagem. Abra essa porta ou haverá um surto de coqueluche no quinto andar! Vou arrombar tudo quanto é porta e tossir em cima de todos!

- Não vou devolver o único DVD do Kubrick que me restou!

- Então eu vou lançar em cima de você todas as bactérias que me restaram, Mário Benjamin!

- Fui vacinado contra essa doença.

- Eu também, honey. Outro mito. Estou aqui, com coqueluche, querido.

- Não vou pegar.

- Mário Benjamin, pense bem! O tratamento não é barato. Você pode ter que fazer um voo para parar de tossir, querido! Só um avião a pelo menos dez mil pés de altura pode matar a bichinha! O antibiótico não vai ser tão eficaz. Além disso, vai te dar náuseas, amargar a sua boca e impedir que pegue sol. A sua corridinha matinal na praia está com os dias contados, Mário Benjamin!

- Doida de pedra.

- Todos as pessoas vão rir na sua cara quando disser que está com coqueluche, honey... ninguém vai acreditar... sua credibilidade vai por água abaixo.

- Eu posso comprovar a doença com exames.

- Honey, não insista. Hoje em dia nem os laboratórios sabem como fazer o exame para isolar a bactéria. A Bordetella foi esquecida, deixada de lado. Pensam se tratar de um sabor de pizza, sobrenome de alguém, algum tipo de borboleta ou coisa parecida. Vai encarar?

- Eu não entrego o filme!

- Então prepare-se e visualize a Bordetella se espalhando pelo seu organismo e produzindo muito muco, Mário Benjamin! Você vai tossir, escarrar e vomitar como nunca...

- Você sabe que esse filme tem um significado especial pra mim! Além do mais, você levou a minha vitrola. Nunca fez questão de usar, mas levou.

- Joguei no lixo. Fiz um favor pra você! Não combinava com a decoração...

-  Ok, borderline. Vou colocar o DVD  em um envelope e passar por debaixo da porta. Todo contato deve ser evitado.

- Mas eu quero a caixa! A caixa! Ela não vai passar por debaixo da porta. Eu sou lá mulher de aceitar algo pela metade! Pense bem, Mário Benjamin!  Pense bem!

- Não vou ceder.

- Se não me der o filme vai ganhar a Pertussis. Se me der o DVD inteiro, fica livre da Bodertella.

- Estou percebendo que a coqueluche deixa sequelas neurológicas também...

- Dispenso suas provocações, Mário Benjamin! Abra essa porta agora! Abra logo! Ou perdeu a noção do perigo? Vou contar até cinco! Um, dois, três...

domingo, 4 de março de 2012

Pele

    
"Nenhum diálogo pode teorizar o que os corpos entendem." Estava correndo para pegar o metrô, mas conseguira ler a frase enquanto descia as escadas acelerada, meio doidivanas, para tentar entrar no trem. Os dizeres saltitavam na panturrilha de uma pessoa à frente, que também iria utilizar o meio de transporte em direção à Zona Sul. Entrou ligeira no vagão, já com o alarme indicando que não havia muito tempo para o embarque. Na bolsa, dois reais, cartão de débito, Bauman, Motilium e três filmes finlandeses que precisava entregar na locadora. Mais uma vez havia esquecido de vê-los e de devolvê-los. A multa só engordava, independentemente de ser amiga do atendente. Diga-se de passagem, figura de respeito: havia lhe apresentado a obra de Solondz. Mas ela deu de ombros para a despesa. Simplesmente não se importava. Não ia descer em Botafogo para depois voltar ao Catete.

O celular foi retirado do bolso, o mesmo onde havia deixado o vale-transporte. Olhava duas, quatro, seis, onze vezes a mesma mensagem que havia recebido no aparelho. Maníaca. Ficou viciada em ler tudo quanto é mensagem: fosse em celulares, pichações, orelhões, porta de banheiros, tatuagens, capa ou interior de livros, mesmo os alheios. Memorizava a maioria. Achava que as frases tinham uma simbologia e, coincidentemente ou não, pareciam estar adequadas ao momento em que eram lidas.

O metrô não estava cheio naquele horário. Não era claustrofóbica mas respirava de forma semelhante a uma asmática, tamanha ansiedade. Resfolegava. Fechava os olhos e, como que em transe, buscava todo o ar que podia. Mal começava a expirar e já sugava mais ar. "Nenhum diálogo pode teorizar o que os corpos entendem, nenhum diálogo pode teorizar o que os corpos entendem, nenhum diálogo pode teorizar o que os corpos entendem”, - pensava, de forma insistente, como um mantra.

A composição estava prestes a parar no Catete. Hesitou por alguns segundos: não sabia por qual lado desceria. Sim, estava atordoada. Os encontros muito esperados ou inesperados provocam certas sensações orgânicas que desestabilizam os mortais; ao mesmo tempo, trazem de volta o propósito da existência e interrompem a mediocridade monocórdia.

          Pegou a saída para o Museu da República. "Sinto muita saudade de você e nada mais humano do que isso." Lembrou-se da dedicatória do livro que havia comprado momentos antes em um sebo na Cinelândia. O escrito parecia valer mais do que a publicação.

Pediu um café e ele já estava lá. Não, não deram um beijo apaixonado como em qualquer love story. Há um ano não se viam. Embora o desejo mútuo fosse óbvio, riram incessantemente um do outro. Abraçaram-se. Sentaram-se à mesa vaga. Em cima, o cardápio, restos de sobremesa e uma nota de cinquenta reais. “Não deixe os sentimentos se perderem de vista, por favor.” Estava estampado na cédula.