- Abra a porta, Mário Benjamin! Ou eu vou chamar a polícia!
- Já disse que não vou abrir!
- Quero negociar os nossos bens de forma civilizada!
- Já dividimos tudo. Ainda por cima, você levou vantagem... O que você quer mais?
- Eu quero que você abra a porta da minha casa!
- Essa não é mais a sua casa! Já faz dois meses!
- Estou tentando ser cordial. Se você não abrir eu vou abrir, Mário Benjamin!
- Troquei a fechadura.
- Como teve coragem? Então eu vou arrombar!
- O que você quer na minha casa???
- O que eu quero na MINHA casa? Como você ainda tem a ousadia de perguntar! Abra essa porta!
- Não vou abrir! Louca desvairada! E não adianta descer as escadas correndo e gritando. Nem chamar o porteiro. Você está no livro de ocorrrências do prédio.
- Como assim, Mário Benjamin?
- Você foi proibida de vir no quinto andar. Eu e os vizinhos fizemos um carta ao síndico. Você foi um dos assuntos da última reunião de condomínio. Aliás, como conseguiu subir?
- Eu tenho os meus métodos e isso não é da sua conta. Abra essa porta!
- Você não vai ganhar com os seus caprichos!
- Tudo bem. Não quer abrir, Mário Benjamin? Tem certeza? Abra essa porta ou você e os seus vizinhos serão contaminados em questão de segundos.
- Contaminados?
- Sim, honey. Contaminados. Ou você abre e me deixa pegar o DVD do Nascido para matar
ou vai morrer sufocado.
- Esse filme eu não vou te devolver nunca! Nunca! Tudo menos devolvê-lo.
- Ah, é? Queridinho, abra essa porta! Caso contrário, Mário Benjamin, você vai se arrepender amargamente de brigar com sua terceira ex-mulher!
- O que você tem na mão? Estou vendo pelo olho mágico.
- Já disse que pode se arrepender...
- Diga logo o que tem dentro desse vidro na sua mão direita!
- Bordetella Pertussis.
- Quem?
- Bordetella Pertussis, Mário Benjamin!
- O que é isso?
- A bactéria da coqueluche, honey. Se não abrir, eu vou arrombar essa porta e espalhar toda a secreção da minha tosse em você! Para completar, vou te dar um beijo na boca daqueles irresistíveis, Mário Benjamin! A sua vizinhança também vai pagar por isso. E aí? Abre ou não abre?
- Não abro. Balela. Essa doença já foi erradicada.
- Doce ilusão, honey! Mito. A coqueluche voltou com tudo!
- Ela não dá em adultos. Você está surtada.
- Mário Benjamin, não fale bobagem. Abra essa porta ou haverá um surto de coqueluche no quinto andar! Vou arrombar tudo quanto é porta e tossir em cima de todos!
- Não vou devolver o único DVD do Kubrick que me restou!
- Então eu vou lançar em cima de você todas as bactérias que me restaram, Mário Benjamin!
- Fui vacinado contra essa doença.
- Eu também, honey. Outro mito. Estou aqui, com coqueluche, querido.
- Não vou pegar.
- Mário Benjamin, pense bem! O tratamento não é barato. Você pode ter que fazer um voo para parar de tossir, querido! Só um avião a pelo menos dez mil pés de altura pode matar a bichinha! O antibiótico não vai ser tão eficaz. Além disso, vai te dar náuseas, amargar a sua boca e impedir que pegue sol. A sua corridinha matinal na praia está com os dias contados, Mário Benjamin!
- Doida de pedra.
- Todos as pessoas vão rir na sua cara quando disser que está com coqueluche, honey... ninguém vai acreditar... sua credibilidade vai por água abaixo.
- Eu posso comprovar a doença com exames.
- Honey, não insista. Hoje em dia nem os laboratórios sabem como fazer o exame para isolar a bactéria. A Bordetella foi esquecida, deixada de lado. Pensam se tratar de um sabor de pizza, sobrenome de alguém, algum tipo de borboleta ou coisa parecida. Vai encarar?
- Eu não entrego o filme!
- Então prepare-se e visualize a Bordetella se espalhando pelo seu organismo e produzindo muito muco, Mário Benjamin! Você vai tossir, escarrar e vomitar como nunca...
- Você sabe que esse filme tem um significado especial pra mim! Além do mais, você levou a minha vitrola. Nunca fez questão de usar, mas levou.
- Joguei no lixo. Fiz um favor pra você! Não combinava com a decoração...
- Ok, borderline. Vou colocar o DVD em um envelope e passar por debaixo da porta. Todo contato deve ser evitado.
- Mas eu quero a caixa! A caixa! Ela não vai passar por debaixo da porta. Eu sou lá mulher de aceitar algo pela metade! Pense bem, Mário Benjamin! Pense bem!
- Não vou ceder.
- Se não me der o filme vai ganhar a Pertussis. Se me der o DVD inteiro, fica livre da Bodertella.
- Estou percebendo que a coqueluche deixa sequelas neurológicas também...
- Dispenso suas provocações, Mário Benjamin! Abra essa porta agora! Abra logo! Ou perdeu a noção do perigo? Vou contar até cinco! Um, dois, três...