terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Amigo de ocasião

- Você? De novo?

- Eu é que digo isso! Está me seguindo, é?

- Em todas as festas encontro você...

- E você me dá um puta abraço, como se fôssemos amigos de longa data ...

- E você corresponde! Tal qual uma amiga de longa data.

- O que faz aqui?

- Pergunto o mesmo.

- Está em todas, hein?

- Estamos sempre circulando por esse mundinho...

- Tem razão.

- Você está melhor?

- De quê? Agora vai me dizer que me conhece tão profundamente que sabe quando estou melhor ou pior?

- Agora você vai me dizer que perdeu a memória? Mas entendo, a bebida faz essas coisas...

- Do que está falando, Jonas?

- Já falei que o meu nome não é Jonas...

- Não quero saber! Pra mim será sempre Jonas. Você tem cara de Jonas.

- Naquele dia você estava muito louca. Pra variar... Misturou tudo. Fiquei até preocupado.

- Foi o dia em que você me viu levar um fora?

- Não, esse dia foi quando nos tornamos amigos.

- Nós não somos amigos, Jonas. Só nos encontramos algumas vezes em festas, shows e bares. E sem combinar! Nem tenho o seu telefone!

- Mas basta me encontrar em uma dessas noites para você dar gritos de felicidade, me abraçar e ficar dançando e bebendo comigo. Depois conta várias coisas da sua vida.

- Jonas, você não sabe nada da minha vida!

- Você não acredita em casamento, detesta homens que mandam mensagens em vez de ligar e vive falando mal dos blasés da Zona Sul. Mas adora músicos.

- De onde você tirou isso, hein?

- De algumas horas de conversa com você pelas noites urbanas.

- Você disse que sabia que eu era carioca pelos pés... Disse que as cariocas não usam salto alto pra sair à noite e que em Minas não é assim. Agora me lembrei como nos conhecemos!

- Você estava dançando, meio doida. Errava toda a letra da música. Eu disse que você estava cheia de segundas intenções com o seu esmalte preto. Daí, você me largou na pista e falou que ia correr atrás das tais segundas intenções!

- Você ficou chateado?

- Não se lembra? Depois de um tempo te encontrei do lado de fora, no bar. O cara que você estava a fim ficou a noite inteira te olhando e quando você foi puxar assunto, ele disse que ia pra casa.

- Malditos blasés!

- Viu?

- Jonas, você não deveria acreditar em tudo o que eu digo!

- Você ficou com muito ódio naquela noite e veio se lamentar comigo.

- E a gente havia acabado de se conhecer... Mas você reencontrou um caso antigo naquele dia. Eu vi!

- Foi legal. Mas não temos afinidades, entende?

- Sei como é.Toma uma vodka comigo?

- Por que não? Mas diga: como está essa vida louca?

- Jonas, já falei que não somos amigos! E não venha com essa não, pois não vou contar nada da minha vida pra você! Nada!  

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Tempo

A poesia acabou em Laranjeiras.
 
Sim, as poesias chegam ao fim,
 
mesmo nos lugares inimagináveis,
 
que transpiram e inspiram versos.
 
Ficam os fragmentos,
 
café-com-leite com mais café, 
 
flores do vestido azul marinho,
 
mesa cativa na calçada,
 
o seu olhar estrangeiro 
 
de um bairro bucólico,
 
que não se parece com a grande cidade
 
e onde a natureza nos acordou.
 
Sim, a poesia também deu um tempo
 
e talvez com o tempo volte
 
em Laranjeiras.

Registros

- Acabou a festa?

- Acho que sim.

- Estão nos expulsando? É isso?

- Pode ser.

- E para onde vamos?

- Como assim para onde vamos? 


- Quando sairmos daqui... Para onde iremos?

- Não sei. Para onde quer ir com um estranho?

- Estou com frio. O meu vestido não tem mangas compridas.

- Madrugada... e aqui em cima fica mais frio ainda. Está chuviscando...

- É... acabou a música, acabou a festa e foi-se o calor. Sabe se tem mais bebida?

- Acho difícil conseguir isso agora nesse lugar. Todo mundo se mandou.

- A vista daqui de cima é bonita. Eu nunca havia reparado no Centro da cidade de madrugada. É lindo, mas triste também. Muito triste.

- O seu vestido tem um ar romântico. Combina com essa madrugada fria, mesmo sem mangas compridas.

- Você gosta de vestidos pretos?

- Essa renda me lembra as pin-ups.

- Me arruma um cigarro?

- Esse vestido preto não é qualquer vestido. Está longe de ser um desses vestidos que se encontram em qualquer lugar ou em qualquer festa. Não... esse vestido tem um lirismo.

- São dois vestidos sobrepostos. A pessoa que fez me explicou que assim a saia ganha um pouco mais de movimento.

- Entendi.

- Tem ou não tem um cigarro?

- É o meu último, mas pode ficar pra você.

- Não sei o que vê de romântico em um vestido preto sem mangas compridas.

- Não é só o vestido É o cenário todo. As suas botas pretas também...

- Eu queria que aquele som psicodélico não terminasse nunca mais. Por que acabou a festa? Me diz! Por que acabou?

- As coisas acabam.

- Mas hoje é sábado. As festas no sábado não deveriam terminar tão rápido.

- Quinta. Hoje é quinta-feira. Feriado.

- Tanto faz. As festas nunca deveriam terminar. Nunca.

- Já vai amanhecer.

- Pois é. Estou com frio. Vamos para algum lugar!

- Garota mimada.

- Vamos à praia. Quero ver o dia clarear.

- Cadê os caras que estavam com você?

- Eram só dois. Foram embora faz tempo.

- Achei que um deles fosse seu namorado.

- Nada! São gays. Vieram brigados mas conseguiram se entender na festa. Estão bem agora.

- E você?

- Estou com frio.

- Por que não vai pra casa então?

- Quero ver a noite virar dia!

- Vamos esperar um táxi.

- Posso te pedir uma coisa?

- Fique tranquila. Vou arrumar mais cigarros...

- Me abraça forte? Me leve embora daqui.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Fim de noite


- Você só dança, é?  

- Não, imagina!  Eu também faço psicanálise, bebo mate diet, gosto de tomar Bohemia, leio muito sobre esoterismo e pratico boxe tailandês.
- Calma, só estou falando isso porque você está dançando há um bom tempo. Estou te sacando. É só uma observação.

- Estou em um show! O que queria que eu fizesse?

- Fiquei analisando o seu jeito de dançar. Tem algo de solitário.

- Era só o que me faltava... No final do show e a essa hora da madrugada ter que ouvir isso. Estou aqui, com meus amigos, fazendo um esforço enorme para falar com você, gritando para que me escute, tentando ser educada...

- Você parece com as mulheres da DDK.
- Por que você também não aproveita o show? Não estou a fim de papo, ainda mais com essa música... Você não quer competir com o Lobão, quer?

- Na DDK, as mulheres ficam com esse olhar como o que você faz na hora de dançar. Existe uma melancolia na expressão delas. Também usam esmalte vermelho como o seu.

- Sei...

- O seu cabelo curto é típico das mulheres da DDK.

- Que ótimo...

- Frequentei muitos anos a DDK. Você já foi lá?

- Não. Nunca fui à DDK.

- Tem tatuagem?

- Não, não tenho tatuagem. Satisfeito?

- Eu tenho duas. Só saio pra rua se for para ouvir rock. É a única coisa que me tira de casa. Sou antissocial.

- Estou vendo...

- Na DDK tinha uma mulher que usava uma calça de onça e só gostava de gothic rock. Sempre ficava na pista de cima. Ela se chama Amanda. É ruiva, mas parece com você... Usava uma pulseira igual a sua.

- Mas eu não me chamo Amanda, nunca pintei o cabelo de vermelho, não conheço a DDK e tampouco o gothic rock.

- Uma coisa que eu gostava muito na DDK eram as projeções de filmes expressionistas. Uma puta onda. Um lugar bem vanguarda.


- Desculpe, não me leve a mal, mas esse papo está me consumindo. Na verdade, gostaria de tentar curtir o restante do show...

- Você ia gostar da DDK. Pena que acabou. Eles podiam voltar com outras edições.

- Podiam mesmo. Se houvesse uma edição hoje da DDK, certamente você estaria nela. E eu poderia estar curtindo mais o fim do show.

- Não! Eu não deixaria de vir ao show do Lobão por causa da DDK. Não é sempre que se tem uma apresentação como essa, mais intimista.

- Pois, é. Justamente por isso eu gostaria de aproveitar mais, se você me permite...

- Ouvi uma conversa de que deve ter a DDK em agosto.

- Ah, é? Quem sabe a gente não se esbarra lá, né? Depois desse papo, acho que vai ser difícil eu esquecer da DDK... Aliás, é mais fácil eu lembrar da DDK do que do próprio show... o Lobão chegou a tocar Presidente Mauricinho?

- Não.

- Pena... Acabou! Não acredito! Mas ele tem que voltar para o palco. Tem que tocar a saideira!

- Fique tranquila que vai voltar.

- Bis! Bis! Bis! Volta! Volta! Volta! Mais uma, mais uma, mais uma!

- Viu? Ele sempre volta! Não é Presidente Mauricinho, mas essa canção também tem o seu valor.

- Verdade.

- Vou deixar você à vontade, então...

- Cool!

- Foi um grande prazer.

- O prazer foi meu...

- Você vai fazer sucesso na DDK.

- Memorável DDK...

- Tomaz. Esse é o meu nome.

- Pode me chamar de Nina.

- Tchau.

- Tchau.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Inquietos

Catete, Largo do Machado, Laranjeiras,

Café-da-manhã, exposição,

Capuccino gelado para dois,

Planos imediatos,

agora, hoje, não dá para esperar,

Rascunhavam um futuro,

nós, talvez, quem sabe,

O desejo não pode ser adiado,

O depois é o próximo minuto,

que, quando generoso,


para por instantes

pelos corajosos

que arriscam a precariedade da paixão.

Sabiam das contradições um do outro

e isso os tornava mais humanos.

Passeavam de mãos dadas

pelas ruas sujas,

personagens,

riam das pessoas de óculos

descolados na Zona Sul,

tinham sua própria trilha,

que cantavam junto com Otto.

Os dois, sem máscaras,

no meio da cidade,

decadente,

pura poesia.

Cada um na beleza de sua imperfeição.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Íntimos desconhecidos


- Agora?

- Agora.

- Não podemos deixar o papo para outro dia?

- Não. Se não for agora, pode ser que não nos vejamos nunca mais.

- Que clichê.

- Quando bem empregado, nada é clichê.

- Convencido.

- Vamos estender a nossa conversa.

- Já está de manhã. O que tenho que estender são as roupas que coloquei ontem à noite na máquina e esqueci de pendurar. Estou cansada do show. Além do mais o meu figurino não combina com esse dia cítrico.

- Motorista, pare aqui. Vamos descer.

- Eu vou descer porque cheguei no meu bairro. Você vai continuar o seu caminho. Motorista, quanto foi? E deixe ele em Botafogo, por favor.

- Quem paga a corrida sou eu. Eu que propus a carona.

- Obrigada pela sua gentileza, desconhecido. Até um próximo encontro inusitado em outro show, quem sabe.

- Você é louca. Entendeu que eu fosse gay.

- Ouvi mal. Não dava para escutar bem o que você me falava no meio daquele barulho todo. E os meus ouvidos estavam voltados para a percussão.

- Os ouvidos podiam estar prestando atenção em outra coisa. Mas você estava de olho em mim.

- Ok, confesso que achei você interessante.

- Bonito. Você me achou bonito.

- Interessante. Mas esse momento durou uns 7 minutos se o seu ego quer saber.

- O tempo de começar a tocar Originais do sonho e você sair correndo para os braços daquele babaca.

- Foi só um beijo. Realmente ele é babaca, conservador, mainstream, cafona e sem grana. Típico jornalista. Não fui para os braços dele. Queria ver o show mais de perto. Por isso corri para a frente do palco. Não tenho culpa se ele teve a mesma ideia.

- Ok, moça desconhecida. Vou fingir que acredito.

- Você estava em outra onda. Agora, dá licença. Preciso descer do táxi. Se eu sair pelo outro lado, posso ser atropelada. Aí é que nunca mais nos veremos mesmo.

- Você não vai me impedir de descer aqui na Praça São Salvador. Pode ficar com o troco, motorista.

- Faça bom proveito da feira então. Vou para minha casa. Tchau.

-Ei, galega, não faça isso. Vamos tomar um caldo de cana.

- Galega... divertido. Gosto do seu sotaque, sabia? Por que não dançou no show?

- A minha relação com a música é outra. Você é que se acabou na pista com um sujeito galanteador.

- Outro desconhecido da noite. Mas quem mandou o DJ tocar Orquestra Imperial depois do show? Não resisti.

- Você está com olheiras.

- E como queria que eu estivesse? Já são dez da manhã! E estou de papo há horas com um desconhecido.

- Faz sete horas e quinze minutos que nos conhecemos naquele show.

- Sim. Tempo suficiente para saber que você escreve poesias, está aprendendo a tocar guitarra, adora Filosofia, ficou muito louco quando morou na Europa, usou aparelho nos dentes, ainda não viu Laranja Mecânica e foi nos últimos dois shows em que eu também estive. Ali éramos desconhecidos mesmo.

- E você o que me diz, moça recém-conhecida?

- Que fui com a sua cara e que temos coisas em comum. Mas não ligo para caldo de cana, se isso não for um problema para você.

- Suco de cajá, então?

- Prefiro o de figo.

- Mulher linda.

- Gostei da sua tatuagem. E do seu jeito de fumar também. Acho que da forma como segura o cigarro na sua boca para acender com o isqueiro.

- Sex appeal?

- Digamos que sim. Você também me salvou.

- A gente não sabia se aquele cara realmente estava te seguindo.

- Sem essa. Eu havia acabado de sair do caixa eletrônico. Na Lapa! Tinha bebido um bocado e os meus reflexos não estavam confiáveis. Provável, não?

- Leve em consideração que sou paranóico.

- Que homem complexo.

- Você me deve um cinema. Gus Van Sant?

- Vou pra casa. Estou com muito sono.

- Veja o horário da sessão quando acordar, galega.

- Posso te fazer uma pergunta, desconhecido?

- Diga.

- Por que justo você tinha que estar de casamento marcado?

- E por que só fui te conhecer hoje?

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Solidão

Solidão é quando nem a si próprio se consegue encontrar
É quando nem consigo mesmo se consegue conversar
E as portas da sua própria casa estão a se fechar

É quando não se tem esperança nem no acordar
E se espera apenas o dia acabar...

É quando nem a sua voz se consegue escutar
E Apesar de todo o barulho do mundo
Tudo fica num silêncio profundo, a te transtornar

E quando finalmente a sua voz começa a soar
E você pensa que tudo vai acabar...

Mais uma vez ela chega pra te assombrar
Sua sombra se cala, Seu coração para
E você está mais uma vez se procurando na frente do espelho sem conseguir se enxergar...



(by FR, um ex-solitário que se encontrou depois de muito tempo...)