- Você viu ou não viu uma diaba de nariz grande, meio pontudo, e com uns vinis debaixo do braço?
- Não, já falei que não vi! Também não seria estranho se a tivesse visto... esse calor é o próprio inferno! Isso aqui está um fervo!
- Ela tem um rabo verde e dourado e um laço preto em um dos chifres...
- Já falei que não! Não vi nenhuma diaba por aqui até agora, muito menos com vinis debaixo do braço e rabo verde e dourado!
- Você está linda de coelhinha, com óculos escuros, corte chanel e viciada em ansiolíticos.
- Até você?
- Até eu o quê?
- Não estou vestida de coelha.
- Gata?
- Rata. As orelhas desses animais são diferentes. Por que vocês, homens, não conseguem perceber isso? Algo tão simples!
- Desculpe, mas...
- Preparei minha fantasia durante dias. Isso já está me gerando uma crise de identidade.
- Que drama! É carnaval! E o melhor: em Santa Teresa.
- Por isso mesmo: não queria ser confundida com outro animal no bloco. Ou alguém duvida que você esteja fantasiado de ativista em greve de fome?
- Me dá um beijo?
- Já disse que beijei um paulistano hoje nesse bloco!
- E qual o problema? Você me falou que se apaixonou várias vezes por aqui hoje...
- É verdade. Mas não posso me apaixonar por um homem que não me compreende.
- Como assim?
- Você achou que eu fosse uma coelha. E já digo de antemão: isso é motivo para divórcio! Um homem deve conhecer bem a sua mulher...
- Mas você não é a minha mulher!
- Por isso mesmo não vou ficar discutindo relação aqui, no meio de um bloco de carnaval.
- Nós nos esbarramos em meio a essa gente toda. Deve haver uma explicação.
- Deveria haver uma explicação para a tamanha insensibilidade de vocês, homens, destituídos de qualquer discernimento!
- Tudo bem , você é uma rata. Não vou me esquecer disso. Prometo. Quero também que me entenda: estou correndo atrás dos meus ideais, por isso estou falando com você.
- Acho melhor você me esquecer, grevista. Esqueça que eu existo! Vamos terminar por aqui!
- Terminar o quê?
- Terminar o que nem vai começar e que, se começasse, terminaria logo. Certamente!
- Você tem certeza que não viu a diaba? Ela não passou por aqui? Tem um laçarote preto inconfundível no chifre...
- Já falei que não! Que diabos, afinal, você quer com essa diaba?
- É minha amiga de São Paulo.
- Será que não está no meio daquele bloco paralelo? Quem entra ali não consegue sair mais...
- Pode ser. Vou dar um pulo lá. Mas vou te encontrar no bloco de novo! Não vou te perder de vista! Você vai ver!