terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Entre serpentinas e paralelepípedos


- Você  viu ou não viu uma diaba de nariz grande, meio pontudo, e com uns vinis debaixo do braço?

- Não, já falei que não vi! Também não seria estranho se a tivesse visto...  esse calor é o próprio inferno! Isso aqui está um fervo!

- Ela tem um rabo verde e dourado e um laço preto em um dos chifres...

- Já falei que não! Não vi nenhuma diaba por aqui até agora, muito menos com vinis debaixo do braço e rabo verde e dourado!

- Você está linda de coelhinha, com óculos escuros, corte chanel e viciada em ansiolíticos.

- Até você?

- Até eu o quê?

- Não estou vestida de coelha.

- Gata?

- Rata. As orelhas desses animais são diferentes. Por que vocês, homens, não conseguem perceber isso? Algo tão simples!

- Desculpe, mas...

- Preparei minha fantasia durante dias. Isso já está me gerando uma crise de identidade.

- Que drama! É carnaval! E o melhor: em Santa Teresa.

- Por isso mesmo: não queria ser confundida com outro animal no bloco. Ou alguém duvida que você esteja fantasiado de ativista em greve de fome?

- Me dá um beijo?

- Já disse que beijei um paulistano hoje nesse bloco!

- E qual o problema? Você me falou que se apaixonou várias vezes por aqui hoje...

- É verdade. Mas não posso me apaixonar por um homem que não me compreende.

- Como assim?

- Você achou que eu fosse uma coelha.  E já digo de antemão: isso é motivo para divórcio! Um homem deve conhecer bem a sua mulher...

- Mas você não é a minha mulher!

- Por isso mesmo não vou ficar discutindo relação aqui, no meio de um bloco de carnaval.

- Nós nos esbarramos em meio a essa gente toda. Deve haver uma explicação.

- Deveria haver uma explicação para a tamanha insensibilidade de vocês, homens, destituídos de qualquer discernimento!

- Tudo bem , você é uma rata. Não vou me esquecer disso. Prometo. Quero também que me entenda: estou correndo atrás dos meus ideais, por isso estou falando com você.

- Acho melhor você me esquecer, grevista. Esqueça que eu existo! Vamos terminar por aqui!

- Terminar o quê?

- Terminar o que nem vai começar e que, se começasse, terminaria logo. Certamente!

- Você tem certeza que não viu a diaba? Ela não passou por aqui? Tem um laçarote preto inconfundível no chifre...

- Já falei que não! Que diabos, afinal, você quer com essa diaba?

- É minha amiga de São Paulo.

- Será que não está no meio daquele bloco paralelo? Quem entra ali não consegue sair mais...

- Pode ser. Vou dar um pulo lá. Mas vou te encontrar no bloco de novo! Não vou te perder de vista! Você vai ver!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Dos infernos

- Uma pra mim, por favor! Bem gelada!

- O mesmo pra mim, seu Zé! Pra arrebentar! Madrugada quente...

- Maldito calor!

- Hell de Janeiro...

- Só uma gelada pra aliviar.

- E tem que ser bem gelada mesmo pra dar vazão.

- Por isso só compro cerveja aqui. Único lugar com cerveja decente no bairro.

- E de garrafa!

- Exatamente!

- Baratas nojentas! Estão por toda parte!

- É a decadência do mundinho urbano, querido...

- E com o calor piora...

- Não é?

- Maldito verão! Não dá uma trégua!

- Isso é só uma palhinha...

- E o carnaval nem começou...

- Maldito ar quente! Maldita insônia! Malditos aparelhos eletrônicos!

- Malditos aparelhos eletrônicos???

- Justamente na cena em que o engravatado pedia pro Robert de Niro parar o táxi em frente ao prédio da mulher...

- Você não está falando de Taxi Driver, está?

- Tinha que ser nessa hora! Tinha?

- Essa cena é muito boa, mas tem outras melhores no filme.

- Eu só queria revê-lo. Não me lembro de quase nada. Mas nunca esqueci da trilha...

- Claro! Nem um pouco óbvia. Linda!

- Pode crer.

- Você ainda não chegou na melhor parte. Tem o momento-chave, que é quando ele chama o amigo taxista e fala que...

- Não! Não diga nada!

- Como assim?

- Eu quero ver! Preciso rever esse filme. É muito importante pra mim!

- Calm down, moça! Só ia fazer uma observação sobre a cena. É um momento crucial, quando ele realmente se mostra deprimido e perturb...

- Já disse que não quero ouvir! Você poderia me fazer essa gentileza às 4 e 35 da manhã? Já não basta o meu DVD ter pifado? Já não basta o meu computador não servir pra nada? Já não basta a minha insônia? Já não basta a quentura? Já não bastam as baratas voadoras? O que você quer fazer mais para estragar o meu dia? Ou melhor, minha noite? Quer dizer, já é quase dia...

- Ok, eu me rendo! Mas a Betsy é estonteante! A chuva, o chão molhado, a noite nova-iorquina... Isso tudo você já viu, né? Aconteceu antes daquela cena...

- Eu queria me lembrar do final. Mas não consigo, simplesmente não consigo. É tão estranho... Sou alucinada por esse filme e não me recordo de quase nada. Como pode?


- Tudo está no seu inconsciente.

-Talvez... Só sei que lá pelas tantas tem uma crítica à imprensa. Disso eu  sei! Malditos jornalistas! Cafajestes! Malditos aparelhos eletrônicos! O meu único desejo agora era ver a outra parte de Taxi Driver!

- Robert de Niro e Jodie Foster impecáveis...

- Maldita madrugada! Maldita insônia! Maldito calor! 


- Vamos beliscar qualquer porcaria?

- Quem sabe assim amanhece logo e o sono resolve aparecer. Sabe-se lá quando vou rever a outra parte de Taxi Driver...

- Calma, uma hora as coisas darão certo. Enquanto isso não acontece, tim-tim!

- Salve o bom cinema!

- Um brinde aos grandes roteiros!

- Malditas baratas! Elas estão se aproximando! Estão vindo na nossa direção!

- Calor dos infernos! Só essa cerveja mesmo! Só uma gelada nessa madrugada maldita!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Estado de espírito

Hoje eu acordei poesia,

tapioca quentinha e café,

saia rodada e bolinhas,

cânticos da manhã,

lá lá lá - lá lá lá - lá lá lá,

ciranda e tudo mais,

flores nos cabelos,

nas mãos e no mar,

pensamentos livres,

caminhos possíveis,

belezas diversas,

ideias muitas,

riquezas singelas,

respostas várias,

sem pressa,
 

ponteiros estáticos,

jornais em silêncio,

dormiram até tarde,

para eu acordar poesia.