domingo, 29 de janeiro de 2012

Desnuda

Se encontrasse você diria que seu dente quebrado e melancolia lhe rendem certo charme. Que meu apartamento velho é pequeno, mas basta para nós dois. Tome cuidado com o taco solto perto do armário, eu diria. Que sou frágil apesar dos cabelos brancos dos meus trinta. Que meus escritos não valem nem míseras moedas e talvez por isso me libertem. Sim, eu mesma fiz esses brincos vermelhos para complementar a renda. E diria que as pessoas preferem não pensar embora pensem exaustivamente sobre o que os outros pensam delas. Que a angústia me deixa zonza e eu me agarro a certas coisas como se estivesse segurando forte em um corrimão. Que não costumo ser romântica, mas aceito (ser) sua dama-da-noite. E, como quem faz um convite, diria para dividirmos os nossos desesperos. De sobreviventes.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Contramão

Ferreira Viana, Corrêa Dutra, Catete. As ruas estavam uma barulheira só. Típico cenário para aquela época do ano. Domingo de manhã, bateria, cervejinha cedo, bebuns e flertes em tudo quando é canto. Até uma procissão se misturava ao bloco carnavalesco. Não se sabia onde começava uma coisa e terminava a outra. Não! A mulher toda de branco não estava fantasiada: foi pagar uma promessa ao santo, mas entrou na multidão do bloco no caminho de volta para casa. Sim! A menina de branco estava no meio da folia: improvisou um véu de filó e um casamento com o namorado por ali mesmo. De resto, pessoas que seguiam pelas ruas, mas não faziam parte da procissão ou do bloco. Havia gente alheia a tudo isso: lá estava ela com o celular, indiferente a toda aquela euforia coletiva. Em sua vestimenta, nenhum adereço. Poderia estar seguindo para o trabalho, sabe-se lá qual, naquele fim de semana. Também poderia estar se dirigindo para qualquer outro lugar que não fosse o emprego, o bloco ou a procissão. Talvez estivesse andando a esmo. Mas ela não largava o telefone.

- E a gente? Não jogue isso fora assim! Não! Não! Não! Olha o que você está fazendo! Foi um encontro raro!

Nem pecebera a presença do Chicão, personagem já conhecido do carnaval carioca. Desfilava sempre nos blocos da cidade, sentado nos ombros de seu dono. Naquela ocasião, o cachorro estava fantasiado de surfista. Chamava a atenção de todos e era difícil não olhar para o animal. Mas ela estava ali: andava pelas ruas e nada via.

- Eu já vivi um terço da minha vida! Não sei quando vou ter um outro encontro desses! Cara, pensa bem no que está fazendo! Foi forte pra você também! Não vamos desperdiçar essa história!

O milho verde estava fresquinho. Havia uma fila grande. Até tapioca tinha para vender. O cheiro era convidativo. Mas ela nada sentia.

- Não me conformo! A gente tem tanta coisa em comum, você sabe. O que importa se sou inesquecível, porra!

 O folião fantasiado de Alex DeLarge arriscou uma graça. Mas ela não queria saber.

- O que vale é o que a gente sente! O resto é formalidade!
 
Largo do Machado. A praça estava lotada. Os velhinhos jogavam dama. No chafariz, alguns namoravam; outros papeavam. E ela lá, no telefone. Falava alto e lutava para enfrentar o barulho.

- Alô? Você está me ouvindo? Eu acho que o meu celular está descarregando!

Andava pela Gago Coutinho. Quase tropeçou em uma pedra que não havia percebido. Uma pessoa chegou a sinalizar para tomar cuidado, mas ela nem viu. Foi por sorte mesmo que não caiu.

- Eu estou falando de desejo! Não vamos teorizar isso! Nem tudo se explica. Você sabe!

 Passou pela barbearia da rua Alice. Mal cumprimentou o dono do boteco ao lado.

- Foi uma puta história! É muita afinidade, porra!

Atravessou a rua das Laranjeiras com o sinal vermelho, como uma louca. Parou em frente à banca de jornal e ficou debochando das manchetes.

- Você tinha que estar comigo aqui! Agora! 

E continou a andar. Ainda dava para ouvir o som de uma marchinha, ao fundo. Era possível ver ciganas, piratas, fadas, palhaços, super-heróis e melindrosas. Pareciam atrasados para o bloco e corriam pela rua das Laranjeiras. E ela lá, no telefone.

- Mas me diz! Diz! Por que tem que ser assim? Por quê?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Noite de verão

-O meu cachorro é magro!

-Não acho! Tá tão espertinho, fortinho, pulando pra tudo quanto é lado!

-Não, não! Estou falando do cachorro-quente... Sempre que venho aqui comer, o seu Oliveira já sabe: quando peço um cachorro magro, é porque quero sem ingredientes. Só pão, salsicha e molho.

-Ah, sim! Pensei que estivesse falando dele... do seu cachorro... Ele é lindo!

-Obrigada, mas é uma menina. Ela é bem esperta mesmo, tem um porte atlético... A senhora já comeu? Está na minha frente?

-Não, minha filha. Pode pegar o seu sanduíche. Tô aqui aproveitando essa noite quente. Adoro noite de calor. É bom para sair um pouco de casa, distrair. Mora aqui na rua?

-Sim. No 557. Sabe qual é ?


-Claro! Conheço isso tudo! São muitos anos nesse bairro, filha. Moro na General Glicério, no 221, apartamento 501. Um prédio meio rosado... Lá é um por andar.

-Sei...


-Moro há muitos anos naquele apartamento. Minha tia vivia aqui, onde está esse banco. Era um palacete! Outros tempos... O meu pai foi sócio-fundador do Fluminense. Eu não pago nada para frequentar o clube. Entro quando quiser. Lá tem um almoço maravilhoso aos domingos! Quem não é sócio pode ir também! A comida é boa. Você já foi?

-Ao clube, sim. Mas nunca almocei lá.


-A gente podia combinar! Vamos no próximo domingo?

-Acho que vou estar trabalhando...

-Você faz o quê?

-Sou jornalista.


-Nossa! E isso dá dinheiro, filha?

-Não.

-Ah, filha... que pena! Uma profissão tão boa...

-Pois é...

-Que pés bonitinhos os seus! Você tem pés de miss! Já foi miss alguma vez?

-Eu? Não, imagina!

-Eu já. Fui miss Caixa Econômica! Eu era mocinha como você.
Tenho fotos lindas! Quando você for lá em casa, vou te mostrar. Olha, eu usava uns saltos enormes para trabalhar. Tinha que ver como eu estava graciosa no dia em que fui coroada. Fui funcionária da Caixa por muitos anos!

-Ah, é?


-Mas vida de miss cansa muito, sabe? Tinha que andar sempre enfeitada, em cima do salto. Uma miss não podia fazer feio no banco!

-Imagino...

-Qual o nome dele? Ele não para de olhar pra você!

-É "ela." Duda.

-Ah, sim! Mas, filha, você sabia que eu criei o termo "banco social"? Eu era bem cotada lá na Caixa Econômica. Sempre gostei de serviço social e de ajudar as pessoas.

-Isso é importante.

-É, mas muita gente já me passou na cara! Até empréstimo já pedi para ajudar os outros! Você é casada?

-Separada.

-Não deu certo, filha? Hoje em dia tá tudo assim... Eu nunca me casei por causa disso: pra não ter que me separar depois!

-Entendo...

-Filha, passe lá em casa pra me visitar! Moro no 221, na General Glicério! O meu apartamento é o 501.

-É, eu sei, a senhora me falou... quando puder, passo sim.

-Qual o seu nome?

-Sofia.

-O meu é Maria Antônia Castelar Figueira Lima.

-Prazer!

-Vou te esperar lá em casa pra tomar um chá! Leve ele também! Tão engraçadinho!

-Pode deixar. Mas é "ela"! É uma menina!





quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Ex

Marcaram um encontro no cinema. Faziam isso pelo menos uma vez a cada quatro meses. Não conseguiam ficar muito tempo distante um do outro. Nem perto. Sabiam bem o que era conviver. Foram casados por oito anos e não suportaram o dia a dia da vida marital.
Edgar e Malu tinham certa afinidade, embora não parecesse. Foi o que restou da turbulenta separação. Gostavam de conversar sobre música, rir dos repórteres de  olhos arregalados dos telejornais, trocar receitas e comentar os últimos livros lidos. Mas também se estranhavam nesses encontros. 

-De novo filme nacional? Não podemos sair dessa mesmice?
-Edgar, você devia ter se lembrado disso quando éramos casados, não?
-Não quero ver isso.
-A história é interessante. Já percebi que você não mudou nada...
-Brasileiro não sabe fazer roteiro.
-Ainda com essa opinião? A sua nova namorada não está ajudando mesmo, né?
-O lado bom é que não sou obrigado a me submeter a uma overdose de filmes nacionais com ela...
-Ah, é? E você? Continua fissurado naqueles suspenses com trilhas sonoras óbvias e que nos tratam como bebezinhos?
-Melhor do que ver histórias fracas que não vão para lugar algum.
-Não generalize, Edgar.
-Que eu saiba quem tem essa mania é você.

Como sempre, Malu venceu. Acabaram vendo o filme escolhido por ela. Terminada a sessão, foram num botequim em Laranjeiras. Enquanto um pediu caldo verde, o outro escolheu creme de palmito.

-O problema é que ele quis falar de muitas coisas ao mesmo tempo no filme. Não soube fazer um recorte. Não focou.
-Edgar, você sempre com o mesmo discurso. Achei o filme denso. A história é complexa mesmo.
-Você fala como se eu fosse um ignorante, uma pessoa superficial. Não venha me criticar. Ou se esqueceu de que assistiu ao O bebê de Rosemary e ao O Iluminado por minha causa?
-Tudo bem. Parabéns pelo seu bom gosto. Mas lembre-se também de que fui eu quem te apresentou aos outros filmes do Almodóvar. Você só tinha visto Mulheres à beira de um ataque de nervos. E mesmo assim apenas uma parte. Hitchcock então...
-Olha quem fala! Só passou a se interessar por Hitchcock depois que o seu orientador falou que você era parecida com as personagens dos suspenses dele... cantada barata...
-Figura Hitchcockiana. Ele me chamava assim. O que posso fazer?
-Apelido ridículo.
-Não posso dizer o mesmo, Edgar.
-Você é tão bobinha!
-Assuma que tinha ciúmes do Osvaldo, Edgar! Implicava às pampas com o meu orientador. Aliás, com a minha tese inteira.
-Não quero falar sobre Escola de Frankfurt agora.
-Ok. Vamos pedir a sobremesa?

E continuaram conversando sobre filmes, livros, culinária, previdência privada. Na maior parte das vezes, discordando. Mas num ponto eram unânimes: detestavam usar alianças.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Sem idade

Saudade de madrugada, café no fogão, biscoito amanteigado,  falta de sono, sem ar, pensamentos, liga ou não liga, escreve ou não escreve, balzaca de araque, parece criança, questões inconscientes, adolescente que chora, falta do amor, menina, apenas isso, menina somente, velas aromatizantes, rituais para boa sorte, amigas e chocolates, bebidinhas que alegram, fotos para a posteridade, mulher, dona da casa, dona do nariz, frágil, nada bem resolvida, busca, busca, busca, teme não mais achar, amor raro, não se encontra por aí, não dá sopa em qualquer esquina, cineminha nós dois, underground, paixão e sorrisos, preguicinha gostosa, pão com polenguinho, música e tatuagem, dia lindo, o amor é lindo, lindos clichês.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sorte

Muitas amigas de Antônia já haviam se consultado com Mãe Jurema. Aliás, praticamente todas. Figura exuberante, com seus cabelos longos de fogo e pele alva, a cartomante era procurada principalmente nos casos de conflitos amorosos na faixa dos trinta. Ela fazia sucesso.
Certa ocasião, Antônia sentiu-se envergonhada. Foi à casa de uma das amigas, numa dessas reuniões só para mulheres, em que levam bebidas, comidinhas e falam mal dos cônjuges. Quando já estavam pra lá de tanto vinho, algumas começaram a contar as adivinhações, previsões, conselhos e preceitos de Mãe Jurema. A cartomante havia acertado o destino de várias delas.
- Depois daquele banho de cheiro, ele caiu na minha rede! Bem que a Mãe Jurema dizia que o Rubens voltaria pra mim e que, no final, eu é que não ia querer mais! Mas tive que acender muito incenso de canela em casa, minha filha! – dizia Ana.
- A Mãe Jurema é danada! Viu que tinha uma sombra no meu caminho. Batata: era a mãe do Oscar. Mulher insuportável... ficava jogando indiretas nos almoços de família. Falava sem parar da primeira nora. Mas tinha uma invejinha de mim porque o Oscar gostava mais da minha salada de pepinos do que da dela. Dona Vilma colocava muita mostarda. Errava na mão, gente! - confirmava Cristina.
Num determinado momento, uma solicitação de Estela constrangeria para sempre Antônia:
-Quem já foi à Mãe Jurema levanta a mão!
Todas levantaram, foi uma gritaria só. Algumas colocaram os dois braços para o alto de uma vez; estavam alvoroçadas. Mas Antônia era exceção.
Quando os ânimos e hormônios se acalmaram, e elas perceberam que Antônia não havia se manifestado, perguntaram, indignadas:
-Você nunca foi à Mãe Jurema?
Acanhada com os olhares fuziladores das amigas, falou baixinho, gaguejando, quase sem voz:
- Nnnnão...
A reprovação era geral. Foi bombardeada com perguntas. Como nunca havia se consultado com Mãe Jurema? Quem era ela pra se dar ao luxo de não precisar ler o futuro nas cartas? Era tão bem resolvida assim? Que maturidade e segurança eram aquelas para conseguir viver trinta e quatro anos sem precisar de Mãe Jurema?
Antônia sentiu que seria hostilizada de vez. Ficou com medo da reação daquelas mulheres histéricas e alcoolizadas.
- Não é que eu não acredite. É que... prefiro confiar na minha intuição...
E vendo as amigas permanecerem sérias, tentou amenizar a situação:
- Mas nada impede que um dia eu vá! – disse Antônia, soltando um sorriso amarelo. Eu até estou precisando... A minha relação com o Bernardo está em ruínas. Não dormimos no mesmo quarto há duas semanas. Quanto ela cobra? Aceita cheque pra trinta dias?
As amigas se solidarizaram. A mulherada imediatamente explicou os trâmites: como chegava lá, que de táxi era mais fácil, que Mãe Jurema não cobrava caro e até poderia parcelar, dependendo do caso.
Antônia agendou a data do jogo. Tomou banho de rosas brancas por três dias seguidos, conforme o recomendado. Vestiu uma roupa clara e lá se foi. Demorou um bocado para achar a rua da cartomante. Subiu uns bons degraus até encontrar a casa, no bairro de Fátima.
Enquanto Mãe Jurema perfumava as mãos e a mesa com alfazema, Antônia olhava para as imagens de Iemanjá e São Jorge, e pedia para que os seus próximos anos fossem mais emocionantes. Embaralhava as cartas e contava os segundos para finalmente saber a sua sorte.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Cenas típicas de um bairro

Laranjeiras tem dessas coisas: você às vezes está distraído, sai para comer algo e jura que vai voltar rápido para seus afazeres domésticos. É só um prato, ali mesmo, no restaurante perto de casa, onde você já está careca de conhecer todo mundo. Mas nem sempre o seu plano é mantido. Existem certos personagens que te captam: você vai ficando, observa, interage, tenta se desvencilhar, dá gargalhadas ou reza para não cruzar com aquela figura nos próximos seis meses.

Sim, o tal restaurante estava cheio, como de costume em uma noite de verão, futebol na TV e pizza família na promoção. Nada mais previsível. E o homem ali: sentado no lado de fora do estabelecimento e vendo o movimento da Rua das Laranjeiras. Fumava um cigarro atrás do outro e bebia sua garrafa de uísque. Bem apessoado, falava sozinho, sem parar. Olhava para as pessoas, mexia com todos e encrencava com os pobres garçons, que precisavam ter jogo de cintura para lidar com o antigo morador do bairro, frequentador de carteirinha do restaurante.

- Esse botequim está falido! Nunca fui tão mal tratado! - dizia ele, apesar dos mimos habituais do gerente, que colocava pouco queijo e uma pitada a mais de bacon na batata-frita preparada sob medida para o cliente. Fazia gestos com as mãos e, às vezes, olhava para os lados para ver se alguém concordava com o que estava falando ou dava algum palpite.

- Se eu dependesse de mulher e de garçom, tava ferrado!

Com o tempo, algumas pessoas foram reparando naquela situação: umas riam, outras fingiam que não viam e ainda havia quem desse corda para o bebum:

- Isso aqui tá uma porcaria mesmo! Por isso a gente tem que enfiar o pé na jaca! Só bebendo pra não se aborrecer! - dizia um cliente da mesa próxima.

- Cambada de incompetentes! O mundo está cheio deles! Tenho 58 anos! Moro aqui há 30! Conheço tudo desse bairro. Está decadente! - esbravejava o homem alcoolizado.

A tal figura também começou a puxar assunto com duas mulheres da mesa de trás:

- Alguma de vocês tem um homem de estimação em casa?

As "pérolas" iam sendo ditas ao longo da noite, em meio ao calor infernal, muitas geladas, gritos de gol e garçons malabaristas. Estes, coitados, nem se chateavam mais com o que ouviam do bebum. Não tinham tempo para prolongar a conversa. Mas o nobre personagem das Laranjeiras continuava a prosa, com quem fosse:

- A gente tem que se amar antes de tudo. Eu amo meus cabelos acinzentados. Quem quiser vai ter que me aceitar desse jeito aí que vocês estão vendo!

Ele ficou horas no restaurante. O jogo já havia acabado, a clientela mudado, mas o bebum permanecia na mesa cativa. Quem sentava perto, virava vítima:

- Vou me reiventar! 2012 vai começar diferente!

Finalmente chegou a hora de pagar a conta. Nem conferiu. Passou no crédito e acendeu mais um cigarro antes de ir embora.

- Nunca mais volto nesse lugar! Espelunca!

No dia seguinte estaria ali de novo, bebendo o seu uísque e arrancando risos de outros frequentadores.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Situação

- Bukowski?

- É. Acabei de comprar ali na livraria pra passar o tempo.

- É um privilégio ocupar o tempo com Bukowski...

- Ele chuta o balde!


- Gosto de um conto em que ele vai trabalhar em um frigorífico. Fica puto com todo mundo... Diz que o emprego é medíocre...

- Você está aqui há um bom tempo também, não é?

- É.

- E o que acha?

- Do quê?

- Dessa situação de hoje.

- Eu que pergunto: o que você acha dessa situação de hoje?

- Eu sei que é jornalista. Mas quem está fazendo a pergunta sou eu! Você já entrevistou muita gente por aqui hoje. Eu vi.


- As pessoas não estão histéricas... Não posso dizer que elas estão nessa condição se não estão! Apesar de tudo, elas não estão histéricas!

- Talvez seja a data. As pessoas ficam mais compreensivas nesse período...


- Pode ser... Mas também não é fácil. Muita gente está esperando para se encontrar com a família. Há quantas horas está aqui?

- Duas. O meu voo estava previsto para às nove da noite. Agora, só quando São Pedro quiser vou chegar no meu destino.

- Conversei com alguns passageiros na mesma situação que a sua.

- E você? Vai ficar até que horas no aeroporto, moça?

- Não sei. Provavelmente passarei a meia-noite aqui... Vou ter que acompanhar essa situação. Sabe-se lá que horas voltarei para o jornal.


- Estou cansado, mas tranquilo. Se o tempo não está bom, não há como voar. Só me resta aguardar.


- Você também não está histérico...

- Deveria estar?

- Não. Você deveria estar como deseja estar. Se o seu desejo é não estar histérico, que seja feita a sua vontade.

- Não gosto muito dessa data... Se dissesse para você que estou à beira de um ataque de nervos, estaria mentindo.

- E eu estaria mentindo se dissesse que as pessoas estão histéricas hoje porque o aeroporto fechou e por causa da chuva. Não, elas não estão histéricas!

- Pois é...

- Estão chateadas, sim. Mas não histéricas! Não há tumulto! Fato.

- Acho que é o meu caso...

- As pessoas não têm com quem brigar... Como vão contra a natureza?

- O meu livro tem duzentas páginas. Posso esperar sossegado lendo Bukowski. Também não quero me estressar hoje.

- As respostas nem sempre são óbvias...

- Será que reabriu? Parece que ouvi anunciarem algo...

- Acho que sim.

- Vou tentar ver isso e resolver minha vida...

- Eu também vou apurar isso e desenrolar minha matéria.

- Feliz Natal. Foi um prazer.

- Feliz Natal pra você também.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Ímpar

Amor em três atos,

nasceu,

floresceu,

não, não morreu.

Amor em três tempos,

contratempos,

contra o tempo,


pouco tempo.

Amor em três dias,

ontem pulsão,


hoje veloz,

amanhã questões.

Amor em uma vida,

desconstrói,

constrói,

dói.

Sim, amor,

sem manual,

sem licença,

sem início

e sem final

óbvios.

Happy New Year!

- Eu quero falar com o Antenor!

- Já expliquei, senhorita: não há nenhum Antenor aqui nesse prédio! Agora, dê licença, por favor. Encoste mais para aquele lado, por gentileza! Os convidados precisam passar para subir na festa do quinto andar.

- Exatamente.O senhor acabou de tocar no assunto e no lugar onde eu queria chegar: a festa do quinto andar.

- Qual o seu nome, por favor? Vou interfonar para o seu André.

- Isso! Tá valendo! Diga ao André que tenho um assunto sério para tratar com ele!

- Ok. Mas preciso do seu nome para dizer que a senhorita tem um assunto sério para tratar com ele... dê uma licencinha do portão para esse casal passar? Obrigado.

- Não preciso dizer o meu nome para o André saber que quero passar o Reveillon com ele!

- Tudo bem. Se a senhorita não disser o nome, não poderei anunciar a sua subida para a festa do quinto andar. Muito menos dizer que a senhorita tem um assunto sério para tratar com ele.

- Lara. O meu nome é Lara.

- Aguarde um pouco, por favor. Vou interfonar.

- Ok...

- Desculpe, minha jovem, mas o seu André disse que não conhece nenhuma Lara.

- Eu sei disso. Por essa razão não adiantaria dizer o meu nome!

- Mas a senhorita disse que tinha um assunto sério para tratar com o seu André....

- E o assunto é sério mesmo!

- A senhorita não errou o prédio? Tem festa em tudo quanto é edifício hoje...

- Sim, mas eu quero ir no André! Quero passar a Virada na festa dele!

- Lamento, minha jovem....

- Max? O nome do senhor é Max, não é?

- Maximiliano!

- Mas eu vi uma pessoa chamar o senhor de Max agora!

- Moradora antiga. Max só para as pessoas com quem tenho alguma convivência.Trabalho aqui há 20 anos, minha filha...

- Ok, seu Maximiliano... eu só preciso de um café e de uma festa para passar o resto do meu Ano-Novo!

- Minha jovem, a senhorita pode passar em algum desses hotéis daí e tomar um café. Quanto à festa, a senhorita está em Copacabana! O que não falta é opção...

- Sim, mas eu quero a festa do André! Ele foi o escolhido! Será que o senhor não consegue entender isso, seu Maximiliano? Tenha um pouco de sensibilidade! É um novo ano que começa!

- Minha jovem, tem uma festa no Arpoador. Dizem que é muito boa... É no parque.

- Eu já dei uma passada lá. Realmente, seu Maximiliano: a festa é descolada. Mas entenda, o André foi o escolhido! E eu preciso de um café! Diga com sinceridade: o senhor acha que estou pedindo muito?

- Jovem, entendo o seu drama, mas não há nada o que fazer.

- Eu só queria ter algum momento de felicidade. Só isso, seu Maximiliano... E o repertório está tão bom... Posso ouvir daqui, ó! O senhor também escuta?

- Sim, filha. Mas tem muitos shows por aí...

- Seu Maximiliano, já são duas e meia da manhã! Interceda por mim!

- Minha jovem, vou interfonar novamente e dizer que a senhorita quer muito ir na festa. Vou perguntar se pode subir, ok? Mas só estou fazendo isso porque é Ano-Novo e não quero ter azar...

- Ok, eu aguardo.

- Ele disse para a senhorita subir pois vai abrir uma exceção...

- Obrigada, seu Maximiliano. Feliz Ano-Novo! Desejo um ano lindo para o senhor. Espere só um minutinho que mais três amigas minhas vão subir. Elas estão atravessando a rua.

- Não, não, minha jovem! Ele abriu uma exceção para a senhorita! Nem sabia da existência de mais três pessoas! Que abuso!

- Abuso sou eu passar o Ano-Novo em uma festa e não levar minhas amigas! Não, seu Maximiliano! Ele vai nos deixar entrar, sim!

- Não, minha jovem! Não posso permitir a entrada delas sem autorização do seu André. Nesse caso, terei que avisá-lo. Não quero estragar a diversão de vocês, mas a senhorita deveria entender o meu lado...

- Tudo bem. Pode interfonar então...

- Jovem, o seu André disse que não vai dar. Só abriu a exceção para a senhorita mesmo.

- Seu Maximiliano, o senhor não entende o meu drama? O ser humano está muito insensível mesmo... Eu só quero passar o resto do meu Reveillon na casa do André! Além do mais, preciso de um café. Um café para brindar esse novo ano! É só isso, minha gente! Agora, diga, do fundo do seu coração: o senhor acha que estou pedindo muito?