quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Ex

Marcaram um encontro no cinema. Faziam isso pelo menos uma vez a cada quatro meses. Não conseguiam ficar muito tempo distante um do outro. Nem perto. Sabiam bem o que era conviver. Foram casados por oito anos e não suportaram o dia a dia da vida marital.
Edgar e Malu tinham certa afinidade, embora não parecesse. Foi o que restou da turbulenta separação. Gostavam de conversar sobre música, rir dos repórteres de  olhos arregalados dos telejornais, trocar receitas e comentar os últimos livros lidos. Mas também se estranhavam nesses encontros. 

-De novo filme nacional? Não podemos sair dessa mesmice?
-Edgar, você devia ter se lembrado disso quando éramos casados, não?
-Não quero ver isso.
-A história é interessante. Já percebi que você não mudou nada...
-Brasileiro não sabe fazer roteiro.
-Ainda com essa opinião? A sua nova namorada não está ajudando mesmo, né?
-O lado bom é que não sou obrigado a me submeter a uma overdose de filmes nacionais com ela...
-Ah, é? E você? Continua fissurado naqueles suspenses com trilhas sonoras óbvias e que nos tratam como bebezinhos?
-Melhor do que ver histórias fracas que não vão para lugar algum.
-Não generalize, Edgar.
-Que eu saiba quem tem essa mania é você.

Como sempre, Malu venceu. Acabaram vendo o filme escolhido por ela. Terminada a sessão, foram num botequim em Laranjeiras. Enquanto um pediu caldo verde, o outro escolheu creme de palmito.

-O problema é que ele quis falar de muitas coisas ao mesmo tempo no filme. Não soube fazer um recorte. Não focou.
-Edgar, você sempre com o mesmo discurso. Achei o filme denso. A história é complexa mesmo.
-Você fala como se eu fosse um ignorante, uma pessoa superficial. Não venha me criticar. Ou se esqueceu de que assistiu ao O bebê de Rosemary e ao O Iluminado por minha causa?
-Tudo bem. Parabéns pelo seu bom gosto. Mas lembre-se também de que fui eu quem te apresentou aos outros filmes do Almodóvar. Você só tinha visto Mulheres à beira de um ataque de nervos. E mesmo assim apenas uma parte. Hitchcock então...
-Olha quem fala! Só passou a se interessar por Hitchcock depois que o seu orientador falou que você era parecida com as personagens dos suspenses dele... cantada barata...
-Figura Hitchcockiana. Ele me chamava assim. O que posso fazer?
-Apelido ridículo.
-Não posso dizer o mesmo, Edgar.
-Você é tão bobinha!
-Assuma que tinha ciúmes do Osvaldo, Edgar! Implicava às pampas com o meu orientador. Aliás, com a minha tese inteira.
-Não quero falar sobre Escola de Frankfurt agora.
-Ok. Vamos pedir a sobremesa?

E continuaram conversando sobre filmes, livros, culinária, previdência privada. Na maior parte das vezes, discordando. Mas num ponto eram unânimes: detestavam usar alianças.


2 comentários:

  1. Essa Malu é das nossas. Ela curte Escola de Frankfurt. Boa garooooota. Beijos, Fê-Novs.

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  2. Ahhh esses casais e suas nostalgias.

    Genilson

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