terça-feira, 4 de junho de 2013

Restos


Ao menos me restam palavras

Loucas, soltas, tolas,

Gotas

Que de mim escorrem.

Por instantes me fazem imune,

Ainda que me insinue

Mais uma vez.

Ao menos me restam palavras

Improvisos, resquícios,

Indícios

Do meu cio,

Do meu berro.

Sim, me revelo

Mais uma vez.

Ao menos me restam palavras

Insistentes no erro,

Desprovidas de zelo.

Em desespero,

Saem do meu corpo

Exposto

Mais uma vez.

Ao menos me restam palavras

Ainda que cansadas,

Descabidas, despidas,

Rompantes;

Simples iniciantes,

Meros clichês

Mais uma vez.

Ao menos me restam palavras

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Peso

A estética vale mais

do que a ética?

Sua beleza tem algo a dizer?

O que sabe sobre você?

Quer mesmo perceber

quão denso pode ser?

Percorrer sua escuridão

Qual o nível da sua pulsão?

De vida.

Arrisca?

Os nossos vazios são diferentes

Eu morri várias vezes

E você, como sente?

Posso me despir de tudo

Eu sou o meu mundo

Nua

As minhas marcas estão aí

Há muito tempo eu me vi

Assim

No fim

Você pode me acompanhar


E em qualquer lugar

Você vai estar

Só

   Enfim. Sós.
 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Cotidiano

Edésio tinha noção de que era um merda. Numa segunda-feira, foi ao trabalho cedo e recebeu a notícia de que deveria entrar pela portaria ao lado. "Estão fazendo uma campanha aí, do Dia do Sorriso", disse a recepcionista. Tentou se desvencilhar, subir pelos fundos, mas foi recebido com um aconchego tão invasivo e artificial para uma empresa multinacional, que chegava a ser constrangedor. Aplaudiram sua chegada e lhe disseram que era muito importante para a equipe. "Sorria para a foto", pediram, em tom falsamente cordial. Edésio fez pose, mostrou os dentes (até os que não tinha) e congelou a expressão. Covarde que era, chegou a levantar a plaquinha da campanha "Sorria: por uma vida melhor no trabalho".  Edésio sabia que era um merda, um infeliz. "Posso me matar", pensava. Mas covarde era até para tirar a própria vida. Talvez alguém pudesse executar o serviço por ele. Mas Edésio não teria dinheiro para pagar o seu assassinato, já que era um funcionário de merda, com um salário de merda, submetido a uma chefia de merda. Edésio era tão covarde, mas tão covarde, que não rejeitava um só pedaço de bolo servido na empresa, ainda que o aniversariante fosse um merda. Afinal de contas, ele também era um merda. E merda por merda dá no mesmo. Olhava ao redor, no escritório, e o que via era isso: um bando de merdas. Tentava pensar em uma saída, mas acabava desistindo, covarde que era. Poderia largar tudo, ir embora para uma cidade pacata, olhar o movimento de pessoas na pracinha, vender picolés Creola e refazer a sua vida. Poderia ir para outro país, reinventar a própria história, limpar privadas, quem sabe daria certo. Talvez pudesse ser feliz em algum lugar frio. Achava que o calor emburrecia. Mas Edésio era burro mesmo, chovesse ou fizesse sol. Jamais teria uma ideia mirabolante para matar o seu chefe. Certamente alguém descobriria. Edésio era de poucas palavras, o que o colocaria sob suspeita. Já havia cedido às pressões mercantilistas e era mais um trabalhador igual a todos, facilmente substituível, ou seja: um funcionário de merda. Pensava, às vezes, que era diferente dos outros colegas, mas não! Não podia se enganar; era um medíocre. E medíocre que é medíocre faz bem o papel de medíocre. Edésio cumpria direitinho a sua função, infeliz que era. Mas nada que um ansiolítico não resolvesse e o fizesse esquecer de tudo por algumas horas, de merda.