segunda-feira, 9 de abril de 2012

Números

- Foram quantas vítimas?

- Dezenove mortos e doze feridos.
- Mas não eram quinze feridos?

- Dois morreram, aumentando o número de óbitos e, consequentemente, diminuindo o de feridos.
- Mas doze mais dois é igual a quatorze - disse o  chefe de redação ao repórter.
- Sim, mas como eu já havia falado a você mais cedo: não eram quinze. Eram quatorze feridos.
- Mas o coleguinha do telejornal deu quinze! 
- O outro suposto ferido passou mal quando viu o incêndio. Teve um mal súbito. Não ficou ferido com as chamas.
- Mas ele não desmaiou?
- Sim.
- E não se machucou?
- Foi mais o susto.  As pessoas perceberam que ia desmaiar e o seguraram.
- Mas o telejornal informou agora que ele ficou ferido! Se as outras emissoras estão contabilizando essa vítima nós teremos que rever a contagem e incluir esse ferido... 
- Mesmo que ele não tenha ficado ferido? Da maneira como esses jornalistas estão falando, dá a impressão de que ele foi mais um dos queimados. E não é o caso. Não vamos generalizar. Vamos ter que explicar isso.
- Mas ele não ficou ferido? 
- Já disse que não.  Eu vi que não.
- Vamos colocá-lo como um dos feridos. 
- O ferido “não - ferido”?
- O homem que desmaiou e que os coleguinhas contabilizaram como ferido.
- Recapitulando, então: eram quinze feridos; dois morreram, ficando treze.  O número de mortos, que era de dezessete, passou para dezenove. É isso o que pretendem informar? 
- Por enquanto, sim. Essa contagem só vai mudar se... A não ser que...
- A não ser o quê?
- A não ser que algum ferido morra. A mais provável para empacotar é aquela mulher grávida...
- A mulher não está grávida.
- Como assim “não está grávida”? O plantão do telejornal acabou de informar que a ferida está grávida.
- A repórter supôs isso e a maioria embarcou. A vítima estava apenas gorda; não é gravidez.
- Como você sabe?
- Se você não se lembra, sou repórter dessa empresa, na qual você também trabalha, e costumo checar as informações com responsabilidade, mesmo as relacionadas às pautas mais imbecis.
- Vamos fechar com essa contagem. Sobre a gestante, não vamos detalhar nada, então. Pode ser que ela realmente não esteja grávida...
- Já disse que a grávida não está grávida e que o ferido não está ferido.
- Existe algum morto que não esteja morto também?
-  Que eu saiba, não. Vou buscar um café.
- Jogo rápido. Volte logo para entrar ao vivo com a atualização do número de vítimas. Alguém pode morrer nos próximos minutos e ...

domingo, 1 de abril de 2012

Eles


Ela andava pelas ruas sem saber aonde ir. No caminho,  a lua,  a noite, pessoas gentis, perversas, indiferentes, engraçadas ou não.  Botequins, travestis, mendigos, vira-latas, jovens. Ratos, risos, baratas. Melancolia pelas ruas.  Poesia.  Misto de decadência e charme; sobretudo charme. 
Ela percorria as vielas de paralelepípedo, automaticamente. Olhava, mas não via; não sentia mais nada,  anestesiada pela dor. Até ser captada por um som, que vinha de longe. Seguiu o ritmo e aterrissou em uma festa, numa espécie de sobrado, onde não conhecia ninguém.
            Cinco horas da manhã e o local estava praticamente vazio. A maior parte das pessoas já havia ido embora. Mas não se importava com isso. Magnetizada pelo som, começou a dançar e a fazer uma espécie de performance. Não era só a melodia que a movia naquele lugar. O DJ também estava em êxtase. A música parecia nunca terminar. O flerte, também não. Nada merecia atenção naquele momento, além do sublime compartilhar do “sentir algo”.
Ela estava se desvencilhando de seus medos. Entregou-se. Eles transcendiam ouvindo aquele som. Era como se Ela estivesse se libertando de toda a sua dor, finalmente. Os dois não se conheciam, mas compreendiam um ao outro. Palavras não expressariam a beleza daquela cena, num salão pequeno e velho, no fim da madrugada. Não havia plateia. Dispensavam testemunhas.
         Seis e meia. A noite cedia espaço à manhã nublada. Embora houvesse o desejo de ambos para que aquele som não terminasse, era hora de recolher os equipamentos e encerrar a festa.
         Eles nunca mais se veriam.



quinta-feira, 22 de março de 2012

Retrô

- Abra a porta, Mário Benjamin! Ou eu vou chamar a polícia!

- Já disse que não vou abrir!

- Quero negociar os nossos bens de forma civilizada!

- Já dividimos tudo. Ainda por cima, você levou vantagem... O que você quer mais?

- Eu quero que você abra a porta da minha casa!

- Essa não é mais a sua casa! Já faz dois meses!

- Estou tentando ser cordial. Se você não abrir eu vou abrir, Mário Benjamin!

- Troquei a fechadura.

- Como teve coragem? Então eu vou arrombar!

- O que você quer na minha casa???

- O que eu quero na MINHA casa? Como você ainda tem a ousadia de perguntar! Abra essa porta!

- Não vou abrir! Louca desvairada! E não adianta descer as escadas correndo e gritando. Nem chamar o porteiro. Você está no livro de ocorrrências do prédio.

- Como assim, Mário Benjamin?

- Você foi proibida de vir no quinto andar. Eu e os vizinhos fizemos um carta ao síndico. Você foi um dos assuntos da última reunião de condomínio. Aliás, como conseguiu subir?

- Eu tenho os meus métodos e isso não é da sua conta. Abra essa porta!

- Você não vai ganhar com os seus caprichos!

- Tudo bem. Não quer abrir, Mário Benjamin? Tem certeza? Abra essa porta ou você e os seus vizinhos serão contaminados em questão de segundos.

- Contaminados?

- Sim, honey. Contaminados. Ou você abre e me deixa pegar o DVD do Nascido para matar
ou vai morrer sufocado.

- Esse filme eu não vou te devolver nunca! Nunca! Tudo menos devolvê-lo.

- Ah, é? Queridinho, abra essa porta! Caso contrário, Mário Benjamin, você vai se arrepender amargamente de brigar com sua terceira ex-mulher!

- O que você tem na mão? Estou vendo pelo olho mágico.

- Já disse que pode se arrepender...


- Diga logo o que tem dentro desse vidro na sua mão direita!

- Bordetella Pertussis.

- Quem?

- Bordetella Pertussis, Mário Benjamin!

- O que é isso?

- A bactéria da coqueluche, honey. Se não abrir, eu vou arrombar essa porta e espalhar toda a secreção da minha tosse em você!  Para completar, vou te dar um beijo na boca daqueles irresistíveis, Mário Benjamin! A sua vizinhança também vai pagar por isso. E aí? Abre ou não abre?

- Não abro. Balela. Essa doença já foi erradicada.

- Doce ilusão, honey! Mito. A coqueluche voltou com tudo!

- Ela não dá em adultos. Você está surtada.

- Mário Benjamin, não fale bobagem. Abra essa porta ou haverá um surto de coqueluche no quinto andar! Vou arrombar tudo quanto é porta e tossir em cima de todos!

- Não vou devolver o único DVD do Kubrick que me restou!

- Então eu vou lançar em cima de você todas as bactérias que me restaram, Mário Benjamin!

- Fui vacinado contra essa doença.

- Eu também, honey. Outro mito. Estou aqui, com coqueluche, querido.

- Não vou pegar.

- Mário Benjamin, pense bem! O tratamento não é barato. Você pode ter que fazer um voo para parar de tossir, querido! Só um avião a pelo menos dez mil pés de altura pode matar a bichinha! O antibiótico não vai ser tão eficaz. Além disso, vai te dar náuseas, amargar a sua boca e impedir que pegue sol. A sua corridinha matinal na praia está com os dias contados, Mário Benjamin!

- Doida de pedra.

- Todos as pessoas vão rir na sua cara quando disser que está com coqueluche, honey... ninguém vai acreditar... sua credibilidade vai por água abaixo.

- Eu posso comprovar a doença com exames.

- Honey, não insista. Hoje em dia nem os laboratórios sabem como fazer o exame para isolar a bactéria. A Bordetella foi esquecida, deixada de lado. Pensam se tratar de um sabor de pizza, sobrenome de alguém, algum tipo de borboleta ou coisa parecida. Vai encarar?

- Eu não entrego o filme!

- Então prepare-se e visualize a Bordetella se espalhando pelo seu organismo e produzindo muito muco, Mário Benjamin! Você vai tossir, escarrar e vomitar como nunca...

- Você sabe que esse filme tem um significado especial pra mim! Além do mais, você levou a minha vitrola. Nunca fez questão de usar, mas levou.

- Joguei no lixo. Fiz um favor pra você! Não combinava com a decoração...

-  Ok, borderline. Vou colocar o DVD  em um envelope e passar por debaixo da porta. Todo contato deve ser evitado.

- Mas eu quero a caixa! A caixa! Ela não vai passar por debaixo da porta. Eu sou lá mulher de aceitar algo pela metade! Pense bem, Mário Benjamin!  Pense bem!

- Não vou ceder.

- Se não me der o filme vai ganhar a Pertussis. Se me der o DVD inteiro, fica livre da Bodertella.

- Estou percebendo que a coqueluche deixa sequelas neurológicas também...

- Dispenso suas provocações, Mário Benjamin! Abra essa porta agora! Abra logo! Ou perdeu a noção do perigo? Vou contar até cinco! Um, dois, três...

domingo, 4 de março de 2012

Pele

    
"Nenhum diálogo pode teorizar o que os corpos entendem." Estava correndo para pegar o metrô, mas conseguira ler a frase enquanto descia as escadas acelerada, meio doidivanas, para tentar entrar no trem. Os dizeres saltitavam na panturrilha de uma pessoa à frente, que também iria utilizar o meio de transporte em direção à Zona Sul. Entrou ligeira no vagão, já com o alarme indicando que não havia muito tempo para o embarque. Na bolsa, dois reais, cartão de débito, Bauman, Motilium e três filmes finlandeses que precisava entregar na locadora. Mais uma vez havia esquecido de vê-los e de devolvê-los. A multa só engordava, independentemente de ser amiga do atendente. Diga-se de passagem, figura de respeito: havia lhe apresentado a obra de Solondz. Mas ela deu de ombros para a despesa. Simplesmente não se importava. Não ia descer em Botafogo para depois voltar ao Catete.

O celular foi retirado do bolso, o mesmo onde havia deixado o vale-transporte. Olhava duas, quatro, seis, onze vezes a mesma mensagem que havia recebido no aparelho. Maníaca. Ficou viciada em ler tudo quanto é mensagem: fosse em celulares, pichações, orelhões, porta de banheiros, tatuagens, capa ou interior de livros, mesmo os alheios. Memorizava a maioria. Achava que as frases tinham uma simbologia e, coincidentemente ou não, pareciam estar adequadas ao momento em que eram lidas.

O metrô não estava cheio naquele horário. Não era claustrofóbica mas respirava de forma semelhante a uma asmática, tamanha ansiedade. Resfolegava. Fechava os olhos e, como que em transe, buscava todo o ar que podia. Mal começava a expirar e já sugava mais ar. "Nenhum diálogo pode teorizar o que os corpos entendem, nenhum diálogo pode teorizar o que os corpos entendem, nenhum diálogo pode teorizar o que os corpos entendem”, - pensava, de forma insistente, como um mantra.

A composição estava prestes a parar no Catete. Hesitou por alguns segundos: não sabia por qual lado desceria. Sim, estava atordoada. Os encontros muito esperados ou inesperados provocam certas sensações orgânicas que desestabilizam os mortais; ao mesmo tempo, trazem de volta o propósito da existência e interrompem a mediocridade monocórdia.

          Pegou a saída para o Museu da República. "Sinto muita saudade de você e nada mais humano do que isso." Lembrou-se da dedicatória do livro que havia comprado momentos antes em um sebo na Cinelândia. O escrito parecia valer mais do que a publicação.

Pediu um café e ele já estava lá. Não, não deram um beijo apaixonado como em qualquer love story. Há um ano não se viam. Embora o desejo mútuo fosse óbvio, riram incessantemente um do outro. Abraçaram-se. Sentaram-se à mesa vaga. Em cima, o cardápio, restos de sobremesa e uma nota de cinquenta reais. “Não deixe os sentimentos se perderem de vista, por favor.” Estava estampado na cédula.






terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Entre serpentinas e paralelepípedos


- Você  viu ou não viu uma diaba de nariz grande, meio pontudo, e com uns vinis debaixo do braço?

- Não, já falei que não vi! Também não seria estranho se a tivesse visto...  esse calor é o próprio inferno! Isso aqui está um fervo!

- Ela tem um rabo verde e dourado e um laço preto em um dos chifres...

- Já falei que não! Não vi nenhuma diaba por aqui até agora, muito menos com vinis debaixo do braço e rabo verde e dourado!

- Você está linda de coelhinha, com óculos escuros, corte chanel e viciada em ansiolíticos.

- Até você?

- Até eu o quê?

- Não estou vestida de coelha.

- Gata?

- Rata. As orelhas desses animais são diferentes. Por que vocês, homens, não conseguem perceber isso? Algo tão simples!

- Desculpe, mas...

- Preparei minha fantasia durante dias. Isso já está me gerando uma crise de identidade.

- Que drama! É carnaval! E o melhor: em Santa Teresa.

- Por isso mesmo: não queria ser confundida com outro animal no bloco. Ou alguém duvida que você esteja fantasiado de ativista em greve de fome?

- Me dá um beijo?

- Já disse que beijei um paulistano hoje nesse bloco!

- E qual o problema? Você me falou que se apaixonou várias vezes por aqui hoje...

- É verdade. Mas não posso me apaixonar por um homem que não me compreende.

- Como assim?

- Você achou que eu fosse uma coelha.  E já digo de antemão: isso é motivo para divórcio! Um homem deve conhecer bem a sua mulher...

- Mas você não é a minha mulher!

- Por isso mesmo não vou ficar discutindo relação aqui, no meio de um bloco de carnaval.

- Nós nos esbarramos em meio a essa gente toda. Deve haver uma explicação.

- Deveria haver uma explicação para a tamanha insensibilidade de vocês, homens, destituídos de qualquer discernimento!

- Tudo bem , você é uma rata. Não vou me esquecer disso. Prometo. Quero também que me entenda: estou correndo atrás dos meus ideais, por isso estou falando com você.

- Acho melhor você me esquecer, grevista. Esqueça que eu existo! Vamos terminar por aqui!

- Terminar o quê?

- Terminar o que nem vai começar e que, se começasse, terminaria logo. Certamente!

- Você tem certeza que não viu a diaba? Ela não passou por aqui? Tem um laçarote preto inconfundível no chifre...

- Já falei que não! Que diabos, afinal, você quer com essa diaba?

- É minha amiga de São Paulo.

- Será que não está no meio daquele bloco paralelo? Quem entra ali não consegue sair mais...

- Pode ser. Vou dar um pulo lá. Mas vou te encontrar no bloco de novo! Não vou te perder de vista! Você vai ver!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Dos infernos

- Uma pra mim, por favor! Bem gelada!

- O mesmo pra mim, seu Zé! Pra arrebentar! Madrugada quente...

- Maldito calor!

- Hell de Janeiro...

- Só uma gelada pra aliviar.

- E tem que ser bem gelada mesmo pra dar vazão.

- Por isso só compro cerveja aqui. Único lugar com cerveja decente no bairro.

- E de garrafa!

- Exatamente!

- Baratas nojentas! Estão por toda parte!

- É a decadência do mundinho urbano, querido...

- E com o calor piora...

- Não é?

- Maldito verão! Não dá uma trégua!

- Isso é só uma palhinha...

- E o carnaval nem começou...

- Maldito ar quente! Maldita insônia! Malditos aparelhos eletrônicos!

- Malditos aparelhos eletrônicos???

- Justamente na cena em que o engravatado pedia pro Robert de Niro parar o táxi em frente ao prédio da mulher...

- Você não está falando de Taxi Driver, está?

- Tinha que ser nessa hora! Tinha?

- Essa cena é muito boa, mas tem outras melhores no filme.

- Eu só queria revê-lo. Não me lembro de quase nada. Mas nunca esqueci da trilha...

- Claro! Nem um pouco óbvia. Linda!

- Pode crer.

- Você ainda não chegou na melhor parte. Tem o momento-chave, que é quando ele chama o amigo taxista e fala que...

- Não! Não diga nada!

- Como assim?

- Eu quero ver! Preciso rever esse filme. É muito importante pra mim!

- Calm down, moça! Só ia fazer uma observação sobre a cena. É um momento crucial, quando ele realmente se mostra deprimido e perturb...

- Já disse que não quero ouvir! Você poderia me fazer essa gentileza às 4 e 35 da manhã? Já não basta o meu DVD ter pifado? Já não basta o meu computador não servir pra nada? Já não basta a minha insônia? Já não basta a quentura? Já não bastam as baratas voadoras? O que você quer fazer mais para estragar o meu dia? Ou melhor, minha noite? Quer dizer, já é quase dia...

- Ok, eu me rendo! Mas a Betsy é estonteante! A chuva, o chão molhado, a noite nova-iorquina... Isso tudo você já viu, né? Aconteceu antes daquela cena...

- Eu queria me lembrar do final. Mas não consigo, simplesmente não consigo. É tão estranho... Sou alucinada por esse filme e não me recordo de quase nada. Como pode?


- Tudo está no seu inconsciente.

-Talvez... Só sei que lá pelas tantas tem uma crítica à imprensa. Disso eu  sei! Malditos jornalistas! Cafajestes! Malditos aparelhos eletrônicos! O meu único desejo agora era ver a outra parte de Taxi Driver!

- Robert de Niro e Jodie Foster impecáveis...

- Maldita madrugada! Maldita insônia! Maldito calor! 


- Vamos beliscar qualquer porcaria?

- Quem sabe assim amanhece logo e o sono resolve aparecer. Sabe-se lá quando vou rever a outra parte de Taxi Driver...

- Calma, uma hora as coisas darão certo. Enquanto isso não acontece, tim-tim!

- Salve o bom cinema!

- Um brinde aos grandes roteiros!

- Malditas baratas! Elas estão se aproximando! Estão vindo na nossa direção!

- Calor dos infernos! Só essa cerveja mesmo! Só uma gelada nessa madrugada maldita!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Estado de espírito

Hoje eu acordei poesia,

tapioca quentinha e café,

saia rodada e bolinhas,

cânticos da manhã,

lá lá lá - lá lá lá - lá lá lá,

ciranda e tudo mais,

flores nos cabelos,

nas mãos e no mar,

pensamentos livres,

caminhos possíveis,

belezas diversas,

ideias muitas,

riquezas singelas,

respostas várias,

sem pressa,
 

ponteiros estáticos,

jornais em silêncio,

dormiram até tarde,

para eu acordar poesia.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Desnuda

Se encontrasse você diria que seu dente quebrado e melancolia lhe rendem certo charme. Que meu apartamento velho é pequeno, mas basta para nós dois. Tome cuidado com o taco solto perto do armário, eu diria. Que sou frágil apesar dos cabelos brancos dos meus trinta. Que meus escritos não valem nem míseras moedas e talvez por isso me libertem. Sim, eu mesma fiz esses brincos vermelhos para complementar a renda. E diria que as pessoas preferem não pensar embora pensem exaustivamente sobre o que os outros pensam delas. Que a angústia me deixa zonza e eu me agarro a certas coisas como se estivesse segurando forte em um corrimão. Que não costumo ser romântica, mas aceito (ser) sua dama-da-noite. E, como quem faz um convite, diria para dividirmos os nossos desesperos. De sobreviventes.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Contramão

Ferreira Viana, Corrêa Dutra, Catete. As ruas estavam uma barulheira só. Típico cenário para aquela época do ano. Domingo de manhã, bateria, cervejinha cedo, bebuns e flertes em tudo quando é canto. Até uma procissão se misturava ao bloco carnavalesco. Não se sabia onde começava uma coisa e terminava a outra. Não! A mulher toda de branco não estava fantasiada: foi pagar uma promessa ao santo, mas entrou na multidão do bloco no caminho de volta para casa. Sim! A menina de branco estava no meio da folia: improvisou um véu de filó e um casamento com o namorado por ali mesmo. De resto, pessoas que seguiam pelas ruas, mas não faziam parte da procissão ou do bloco. Havia gente alheia a tudo isso: lá estava ela com o celular, indiferente a toda aquela euforia coletiva. Em sua vestimenta, nenhum adereço. Poderia estar seguindo para o trabalho, sabe-se lá qual, naquele fim de semana. Também poderia estar se dirigindo para qualquer outro lugar que não fosse o emprego, o bloco ou a procissão. Talvez estivesse andando a esmo. Mas ela não largava o telefone.

- E a gente? Não jogue isso fora assim! Não! Não! Não! Olha o que você está fazendo! Foi um encontro raro!

Nem pecebera a presença do Chicão, personagem já conhecido do carnaval carioca. Desfilava sempre nos blocos da cidade, sentado nos ombros de seu dono. Naquela ocasião, o cachorro estava fantasiado de surfista. Chamava a atenção de todos e era difícil não olhar para o animal. Mas ela estava ali: andava pelas ruas e nada via.

- Eu já vivi um terço da minha vida! Não sei quando vou ter um outro encontro desses! Cara, pensa bem no que está fazendo! Foi forte pra você também! Não vamos desperdiçar essa história!

O milho verde estava fresquinho. Havia uma fila grande. Até tapioca tinha para vender. O cheiro era convidativo. Mas ela nada sentia.

- Não me conformo! A gente tem tanta coisa em comum, você sabe. O que importa se sou inesquecível, porra!

 O folião fantasiado de Alex DeLarge arriscou uma graça. Mas ela não queria saber.

- O que vale é o que a gente sente! O resto é formalidade!
 
Largo do Machado. A praça estava lotada. Os velhinhos jogavam dama. No chafariz, alguns namoravam; outros papeavam. E ela lá, no telefone. Falava alto e lutava para enfrentar o barulho.

- Alô? Você está me ouvindo? Eu acho que o meu celular está descarregando!

Andava pela Gago Coutinho. Quase tropeçou em uma pedra que não havia percebido. Uma pessoa chegou a sinalizar para tomar cuidado, mas ela nem viu. Foi por sorte mesmo que não caiu.

- Eu estou falando de desejo! Não vamos teorizar isso! Nem tudo se explica. Você sabe!

 Passou pela barbearia da rua Alice. Mal cumprimentou o dono do boteco ao lado.

- Foi uma puta história! É muita afinidade, porra!

Atravessou a rua das Laranjeiras com o sinal vermelho, como uma louca. Parou em frente à banca de jornal e ficou debochando das manchetes.

- Você tinha que estar comigo aqui! Agora! 

E continou a andar. Ainda dava para ouvir o som de uma marchinha, ao fundo. Era possível ver ciganas, piratas, fadas, palhaços, super-heróis e melindrosas. Pareciam atrasados para o bloco e corriam pela rua das Laranjeiras. E ela lá, no telefone.

- Mas me diz! Diz! Por que tem que ser assim? Por quê?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Noite de verão

-O meu cachorro é magro!

-Não acho! Tá tão espertinho, fortinho, pulando pra tudo quanto é lado!

-Não, não! Estou falando do cachorro-quente... Sempre que venho aqui comer, o seu Oliveira já sabe: quando peço um cachorro magro, é porque quero sem ingredientes. Só pão, salsicha e molho.

-Ah, sim! Pensei que estivesse falando dele... do seu cachorro... Ele é lindo!

-Obrigada, mas é uma menina. Ela é bem esperta mesmo, tem um porte atlético... A senhora já comeu? Está na minha frente?

-Não, minha filha. Pode pegar o seu sanduíche. Tô aqui aproveitando essa noite quente. Adoro noite de calor. É bom para sair um pouco de casa, distrair. Mora aqui na rua?

-Sim. No 557. Sabe qual é ?


-Claro! Conheço isso tudo! São muitos anos nesse bairro, filha. Moro na General Glicério, no 221, apartamento 501. Um prédio meio rosado... Lá é um por andar.

-Sei...


-Moro há muitos anos naquele apartamento. Minha tia vivia aqui, onde está esse banco. Era um palacete! Outros tempos... O meu pai foi sócio-fundador do Fluminense. Eu não pago nada para frequentar o clube. Entro quando quiser. Lá tem um almoço maravilhoso aos domingos! Quem não é sócio pode ir também! A comida é boa. Você já foi?

-Ao clube, sim. Mas nunca almocei lá.


-A gente podia combinar! Vamos no próximo domingo?

-Acho que vou estar trabalhando...

-Você faz o quê?

-Sou jornalista.


-Nossa! E isso dá dinheiro, filha?

-Não.

-Ah, filha... que pena! Uma profissão tão boa...

-Pois é...

-Que pés bonitinhos os seus! Você tem pés de miss! Já foi miss alguma vez?

-Eu? Não, imagina!

-Eu já. Fui miss Caixa Econômica! Eu era mocinha como você.
Tenho fotos lindas! Quando você for lá em casa, vou te mostrar. Olha, eu usava uns saltos enormes para trabalhar. Tinha que ver como eu estava graciosa no dia em que fui coroada. Fui funcionária da Caixa por muitos anos!

-Ah, é?


-Mas vida de miss cansa muito, sabe? Tinha que andar sempre enfeitada, em cima do salto. Uma miss não podia fazer feio no banco!

-Imagino...

-Qual o nome dele? Ele não para de olhar pra você!

-É "ela." Duda.

-Ah, sim! Mas, filha, você sabia que eu criei o termo "banco social"? Eu era bem cotada lá na Caixa Econômica. Sempre gostei de serviço social e de ajudar as pessoas.

-Isso é importante.

-É, mas muita gente já me passou na cara! Até empréstimo já pedi para ajudar os outros! Você é casada?

-Separada.

-Não deu certo, filha? Hoje em dia tá tudo assim... Eu nunca me casei por causa disso: pra não ter que me separar depois!

-Entendo...

-Filha, passe lá em casa pra me visitar! Moro no 221, na General Glicério! O meu apartamento é o 501.

-É, eu sei, a senhora me falou... quando puder, passo sim.

-Qual o seu nome?

-Sofia.

-O meu é Maria Antônia Castelar Figueira Lima.

-Prazer!

-Vou te esperar lá em casa pra tomar um chá! Leve ele também! Tão engraçadinho!

-Pode deixar. Mas é "ela"! É uma menina!





quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Ex

Marcaram um encontro no cinema. Faziam isso pelo menos uma vez a cada quatro meses. Não conseguiam ficar muito tempo distante um do outro. Nem perto. Sabiam bem o que era conviver. Foram casados por oito anos e não suportaram o dia a dia da vida marital.
Edgar e Malu tinham certa afinidade, embora não parecesse. Foi o que restou da turbulenta separação. Gostavam de conversar sobre música, rir dos repórteres de  olhos arregalados dos telejornais, trocar receitas e comentar os últimos livros lidos. Mas também se estranhavam nesses encontros. 

-De novo filme nacional? Não podemos sair dessa mesmice?
-Edgar, você devia ter se lembrado disso quando éramos casados, não?
-Não quero ver isso.
-A história é interessante. Já percebi que você não mudou nada...
-Brasileiro não sabe fazer roteiro.
-Ainda com essa opinião? A sua nova namorada não está ajudando mesmo, né?
-O lado bom é que não sou obrigado a me submeter a uma overdose de filmes nacionais com ela...
-Ah, é? E você? Continua fissurado naqueles suspenses com trilhas sonoras óbvias e que nos tratam como bebezinhos?
-Melhor do que ver histórias fracas que não vão para lugar algum.
-Não generalize, Edgar.
-Que eu saiba quem tem essa mania é você.

Como sempre, Malu venceu. Acabaram vendo o filme escolhido por ela. Terminada a sessão, foram num botequim em Laranjeiras. Enquanto um pediu caldo verde, o outro escolheu creme de palmito.

-O problema é que ele quis falar de muitas coisas ao mesmo tempo no filme. Não soube fazer um recorte. Não focou.
-Edgar, você sempre com o mesmo discurso. Achei o filme denso. A história é complexa mesmo.
-Você fala como se eu fosse um ignorante, uma pessoa superficial. Não venha me criticar. Ou se esqueceu de que assistiu ao O bebê de Rosemary e ao O Iluminado por minha causa?
-Tudo bem. Parabéns pelo seu bom gosto. Mas lembre-se também de que fui eu quem te apresentou aos outros filmes do Almodóvar. Você só tinha visto Mulheres à beira de um ataque de nervos. E mesmo assim apenas uma parte. Hitchcock então...
-Olha quem fala! Só passou a se interessar por Hitchcock depois que o seu orientador falou que você era parecida com as personagens dos suspenses dele... cantada barata...
-Figura Hitchcockiana. Ele me chamava assim. O que posso fazer?
-Apelido ridículo.
-Não posso dizer o mesmo, Edgar.
-Você é tão bobinha!
-Assuma que tinha ciúmes do Osvaldo, Edgar! Implicava às pampas com o meu orientador. Aliás, com a minha tese inteira.
-Não quero falar sobre Escola de Frankfurt agora.
-Ok. Vamos pedir a sobremesa?

E continuaram conversando sobre filmes, livros, culinária, previdência privada. Na maior parte das vezes, discordando. Mas num ponto eram unânimes: detestavam usar alianças.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Sem idade

Saudade de madrugada, café no fogão, biscoito amanteigado,  falta de sono, sem ar, pensamentos, liga ou não liga, escreve ou não escreve, balzaca de araque, parece criança, questões inconscientes, adolescente que chora, falta do amor, menina, apenas isso, menina somente, velas aromatizantes, rituais para boa sorte, amigas e chocolates, bebidinhas que alegram, fotos para a posteridade, mulher, dona da casa, dona do nariz, frágil, nada bem resolvida, busca, busca, busca, teme não mais achar, amor raro, não se encontra por aí, não dá sopa em qualquer esquina, cineminha nós dois, underground, paixão e sorrisos, preguicinha gostosa, pão com polenguinho, música e tatuagem, dia lindo, o amor é lindo, lindos clichês.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sorte

Muitas amigas de Antônia já haviam se consultado com Mãe Jurema. Aliás, praticamente todas. Figura exuberante, com seus cabelos longos de fogo e pele alva, a cartomante era procurada principalmente nos casos de conflitos amorosos na faixa dos trinta. Ela fazia sucesso.
Certa ocasião, Antônia sentiu-se envergonhada. Foi à casa de uma das amigas, numa dessas reuniões só para mulheres, em que levam bebidas, comidinhas e falam mal dos cônjuges. Quando já estavam pra lá de tanto vinho, algumas começaram a contar as adivinhações, previsões, conselhos e preceitos de Mãe Jurema. A cartomante havia acertado o destino de várias delas.
- Depois daquele banho de cheiro, ele caiu na minha rede! Bem que a Mãe Jurema dizia que o Rubens voltaria pra mim e que, no final, eu é que não ia querer mais! Mas tive que acender muito incenso de canela em casa, minha filha! – dizia Ana.
- A Mãe Jurema é danada! Viu que tinha uma sombra no meu caminho. Batata: era a mãe do Oscar. Mulher insuportável... ficava jogando indiretas nos almoços de família. Falava sem parar da primeira nora. Mas tinha uma invejinha de mim porque o Oscar gostava mais da minha salada de pepinos do que da dela. Dona Vilma colocava muita mostarda. Errava na mão, gente! - confirmava Cristina.
Num determinado momento, uma solicitação de Estela constrangeria para sempre Antônia:
-Quem já foi à Mãe Jurema levanta a mão!
Todas levantaram, foi uma gritaria só. Algumas colocaram os dois braços para o alto de uma vez; estavam alvoroçadas. Mas Antônia era exceção.
Quando os ânimos e hormônios se acalmaram, e elas perceberam que Antônia não havia se manifestado, perguntaram, indignadas:
-Você nunca foi à Mãe Jurema?
Acanhada com os olhares fuziladores das amigas, falou baixinho, gaguejando, quase sem voz:
- Nnnnão...
A reprovação era geral. Foi bombardeada com perguntas. Como nunca havia se consultado com Mãe Jurema? Quem era ela pra se dar ao luxo de não precisar ler o futuro nas cartas? Era tão bem resolvida assim? Que maturidade e segurança eram aquelas para conseguir viver trinta e quatro anos sem precisar de Mãe Jurema?
Antônia sentiu que seria hostilizada de vez. Ficou com medo da reação daquelas mulheres histéricas e alcoolizadas.
- Não é que eu não acredite. É que... prefiro confiar na minha intuição...
E vendo as amigas permanecerem sérias, tentou amenizar a situação:
- Mas nada impede que um dia eu vá! – disse Antônia, soltando um sorriso amarelo. Eu até estou precisando... A minha relação com o Bernardo está em ruínas. Não dormimos no mesmo quarto há duas semanas. Quanto ela cobra? Aceita cheque pra trinta dias?
As amigas se solidarizaram. A mulherada imediatamente explicou os trâmites: como chegava lá, que de táxi era mais fácil, que Mãe Jurema não cobrava caro e até poderia parcelar, dependendo do caso.
Antônia agendou a data do jogo. Tomou banho de rosas brancas por três dias seguidos, conforme o recomendado. Vestiu uma roupa clara e lá se foi. Demorou um bocado para achar a rua da cartomante. Subiu uns bons degraus até encontrar a casa, no bairro de Fátima.
Enquanto Mãe Jurema perfumava as mãos e a mesa com alfazema, Antônia olhava para as imagens de Iemanjá e São Jorge, e pedia para que os seus próximos anos fossem mais emocionantes. Embaralhava as cartas e contava os segundos para finalmente saber a sua sorte.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Cenas típicas de um bairro

Laranjeiras tem dessas coisas: você às vezes está distraído, sai para comer algo e jura que vai voltar rápido para seus afazeres domésticos. É só um prato, ali mesmo, no restaurante perto de casa, onde você já está careca de conhecer todo mundo. Mas nem sempre o seu plano é mantido. Existem certos personagens que te captam: você vai ficando, observa, interage, tenta se desvencilhar, dá gargalhadas ou reza para não cruzar com aquela figura nos próximos seis meses.

Sim, o tal restaurante estava cheio, como de costume em uma noite de verão, futebol na TV e pizza família na promoção. Nada mais previsível. E o homem ali: sentado no lado de fora do estabelecimento e vendo o movimento da Rua das Laranjeiras. Fumava um cigarro atrás do outro e bebia sua garrafa de uísque. Bem apessoado, falava sozinho, sem parar. Olhava para as pessoas, mexia com todos e encrencava com os pobres garçons, que precisavam ter jogo de cintura para lidar com o antigo morador do bairro, frequentador de carteirinha do restaurante.

- Esse botequim está falido! Nunca fui tão mal tratado! - dizia ele, apesar dos mimos habituais do gerente, que colocava pouco queijo e uma pitada a mais de bacon na batata-frita preparada sob medida para o cliente. Fazia gestos com as mãos e, às vezes, olhava para os lados para ver se alguém concordava com o que estava falando ou dava algum palpite.

- Se eu dependesse de mulher e de garçom, tava ferrado!

Com o tempo, algumas pessoas foram reparando naquela situação: umas riam, outras fingiam que não viam e ainda havia quem desse corda para o bebum:

- Isso aqui tá uma porcaria mesmo! Por isso a gente tem que enfiar o pé na jaca! Só bebendo pra não se aborrecer! - dizia um cliente da mesa próxima.

- Cambada de incompetentes! O mundo está cheio deles! Tenho 58 anos! Moro aqui há 30! Conheço tudo desse bairro. Está decadente! - esbravejava o homem alcoolizado.

A tal figura também começou a puxar assunto com duas mulheres da mesa de trás:

- Alguma de vocês tem um homem de estimação em casa?

As "pérolas" iam sendo ditas ao longo da noite, em meio ao calor infernal, muitas geladas, gritos de gol e garçons malabaristas. Estes, coitados, nem se chateavam mais com o que ouviam do bebum. Não tinham tempo para prolongar a conversa. Mas o nobre personagem das Laranjeiras continuava a prosa, com quem fosse:

- A gente tem que se amar antes de tudo. Eu amo meus cabelos acinzentados. Quem quiser vai ter que me aceitar desse jeito aí que vocês estão vendo!

Ele ficou horas no restaurante. O jogo já havia acabado, a clientela mudado, mas o bebum permanecia na mesa cativa. Quem sentava perto, virava vítima:

- Vou me reiventar! 2012 vai começar diferente!

Finalmente chegou a hora de pagar a conta. Nem conferiu. Passou no crédito e acendeu mais um cigarro antes de ir embora.

- Nunca mais volto nesse lugar! Espelunca!

No dia seguinte estaria ali de novo, bebendo o seu uísque e arrancando risos de outros frequentadores.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Situação

- Bukowski?

- É. Acabei de comprar ali na livraria pra passar o tempo.

- É um privilégio ocupar o tempo com Bukowski...

- Ele chuta o balde!


- Gosto de um conto em que ele vai trabalhar em um frigorífico. Fica puto com todo mundo... Diz que o emprego é medíocre...

- Você está aqui há um bom tempo também, não é?

- É.

- E o que acha?

- Do quê?

- Dessa situação de hoje.

- Eu que pergunto: o que você acha dessa situação de hoje?

- Eu sei que é jornalista. Mas quem está fazendo a pergunta sou eu! Você já entrevistou muita gente por aqui hoje. Eu vi.


- As pessoas não estão histéricas... Não posso dizer que elas estão nessa condição se não estão! Apesar de tudo, elas não estão histéricas!

- Talvez seja a data. As pessoas ficam mais compreensivas nesse período...


- Pode ser... Mas também não é fácil. Muita gente está esperando para se encontrar com a família. Há quantas horas está aqui?

- Duas. O meu voo estava previsto para às nove da noite. Agora, só quando São Pedro quiser vou chegar no meu destino.

- Conversei com alguns passageiros na mesma situação que a sua.

- E você? Vai ficar até que horas no aeroporto, moça?

- Não sei. Provavelmente passarei a meia-noite aqui... Vou ter que acompanhar essa situação. Sabe-se lá que horas voltarei para o jornal.


- Estou cansado, mas tranquilo. Se o tempo não está bom, não há como voar. Só me resta aguardar.


- Você também não está histérico...

- Deveria estar?

- Não. Você deveria estar como deseja estar. Se o seu desejo é não estar histérico, que seja feita a sua vontade.

- Não gosto muito dessa data... Se dissesse para você que estou à beira de um ataque de nervos, estaria mentindo.

- E eu estaria mentindo se dissesse que as pessoas estão histéricas hoje porque o aeroporto fechou e por causa da chuva. Não, elas não estão histéricas!

- Pois é...

- Estão chateadas, sim. Mas não histéricas! Não há tumulto! Fato.

- Acho que é o meu caso...

- As pessoas não têm com quem brigar... Como vão contra a natureza?

- O meu livro tem duzentas páginas. Posso esperar sossegado lendo Bukowski. Também não quero me estressar hoje.

- As respostas nem sempre são óbvias...

- Será que reabriu? Parece que ouvi anunciarem algo...

- Acho que sim.

- Vou tentar ver isso e resolver minha vida...

- Eu também vou apurar isso e desenrolar minha matéria.

- Feliz Natal. Foi um prazer.

- Feliz Natal pra você também.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Ímpar

Amor em três atos,

nasceu,

floresceu,

não, não morreu.

Amor em três tempos,

contratempos,

contra o tempo,


pouco tempo.

Amor em três dias,

ontem pulsão,


hoje veloz,

amanhã questões.

Amor em uma vida,

desconstrói,

constrói,

dói.

Sim, amor,

sem manual,

sem licença,

sem início

e sem final

óbvios.

Happy New Year!

- Eu quero falar com o Antenor!

- Já expliquei, senhorita: não há nenhum Antenor aqui nesse prédio! Agora, dê licença, por favor. Encoste mais para aquele lado, por gentileza! Os convidados precisam passar para subir na festa do quinto andar.

- Exatamente.O senhor acabou de tocar no assunto e no lugar onde eu queria chegar: a festa do quinto andar.

- Qual o seu nome, por favor? Vou interfonar para o seu André.

- Isso! Tá valendo! Diga ao André que tenho um assunto sério para tratar com ele!

- Ok. Mas preciso do seu nome para dizer que a senhorita tem um assunto sério para tratar com ele... dê uma licencinha do portão para esse casal passar? Obrigado.

- Não preciso dizer o meu nome para o André saber que quero passar o Reveillon com ele!

- Tudo bem. Se a senhorita não disser o nome, não poderei anunciar a sua subida para a festa do quinto andar. Muito menos dizer que a senhorita tem um assunto sério para tratar com ele.

- Lara. O meu nome é Lara.

- Aguarde um pouco, por favor. Vou interfonar.

- Ok...

- Desculpe, minha jovem, mas o seu André disse que não conhece nenhuma Lara.

- Eu sei disso. Por essa razão não adiantaria dizer o meu nome!

- Mas a senhorita disse que tinha um assunto sério para tratar com o seu André....

- E o assunto é sério mesmo!

- A senhorita não errou o prédio? Tem festa em tudo quanto é edifício hoje...

- Sim, mas eu quero ir no André! Quero passar a Virada na festa dele!

- Lamento, minha jovem....

- Max? O nome do senhor é Max, não é?

- Maximiliano!

- Mas eu vi uma pessoa chamar o senhor de Max agora!

- Moradora antiga. Max só para as pessoas com quem tenho alguma convivência.Trabalho aqui há 20 anos, minha filha...

- Ok, seu Maximiliano... eu só preciso de um café e de uma festa para passar o resto do meu Ano-Novo!

- Minha jovem, a senhorita pode passar em algum desses hotéis daí e tomar um café. Quanto à festa, a senhorita está em Copacabana! O que não falta é opção...

- Sim, mas eu quero a festa do André! Ele foi o escolhido! Será que o senhor não consegue entender isso, seu Maximiliano? Tenha um pouco de sensibilidade! É um novo ano que começa!

- Minha jovem, tem uma festa no Arpoador. Dizem que é muito boa... É no parque.

- Eu já dei uma passada lá. Realmente, seu Maximiliano: a festa é descolada. Mas entenda, o André foi o escolhido! E eu preciso de um café! Diga com sinceridade: o senhor acha que estou pedindo muito?

- Jovem, entendo o seu drama, mas não há nada o que fazer.

- Eu só queria ter algum momento de felicidade. Só isso, seu Maximiliano... E o repertório está tão bom... Posso ouvir daqui, ó! O senhor também escuta?

- Sim, filha. Mas tem muitos shows por aí...

- Seu Maximiliano, já são duas e meia da manhã! Interceda por mim!

- Minha jovem, vou interfonar novamente e dizer que a senhorita quer muito ir na festa. Vou perguntar se pode subir, ok? Mas só estou fazendo isso porque é Ano-Novo e não quero ter azar...

- Ok, eu aguardo.

- Ele disse para a senhorita subir pois vai abrir uma exceção...

- Obrigada, seu Maximiliano. Feliz Ano-Novo! Desejo um ano lindo para o senhor. Espere só um minutinho que mais três amigas minhas vão subir. Elas estão atravessando a rua.

- Não, não, minha jovem! Ele abriu uma exceção para a senhorita! Nem sabia da existência de mais três pessoas! Que abuso!

- Abuso sou eu passar o Ano-Novo em uma festa e não levar minhas amigas! Não, seu Maximiliano! Ele vai nos deixar entrar, sim!

- Não, minha jovem! Não posso permitir a entrada delas sem autorização do seu André. Nesse caso, terei que avisá-lo. Não quero estragar a diversão de vocês, mas a senhorita deveria entender o meu lado...

- Tudo bem. Pode interfonar então...

- Jovem, o seu André disse que não vai dar. Só abriu a exceção para a senhorita mesmo.

- Seu Maximiliano, o senhor não entende o meu drama? O ser humano está muito insensível mesmo... Eu só quero passar o resto do meu Reveillon na casa do André! Além do mais, preciso de um café. Um café para brindar esse novo ano! É só isso, minha gente! Agora, diga, do fundo do seu coração: o senhor acha que estou pedindo muito?