Ela andava pelas ruas sem saber aonde ir. No
caminho, a lua, a noite, pessoas gentis, perversas, indiferentes, engraçadas ou não. Botequins, travestis, mendigos, vira-latas, jovens. Ratos, risos, baratas. Melancolia pelas ruas. Poesia. Misto de decadência e charme; sobretudo charme.
Ela percorria as vielas de paralelepípedo,
automaticamente. Olhava, mas não via; não sentia mais nada, anestesiada pela dor. Até ser captada por um som,
que vinha de longe. Seguiu o ritmo e aterrissou em uma festa, numa espécie de sobrado, onde
não conhecia ninguém.
Cinco horas da manhã e o local estava praticamente
vazio. A maior parte das pessoas já havia ido embora. Mas não se importava
com isso. Magnetizada pelo som, começou a dançar e a fazer uma espécie de performance. Não era só a melodia que a
movia naquele lugar. O DJ também estava em êxtase. A
música parecia nunca terminar. O flerte, também não. Nada merecia atenção
naquele momento, além do sublime compartilhar do “sentir algo”.
Ela estava se desvencilhando de seus medos.
Entregou-se. Eles transcendiam
ouvindo aquele som. Era como se Ela estivesse se libertando de toda a sua
dor, finalmente. Os dois não se conheciam, mas compreendiam um ao outro.
Palavras não expressariam a beleza daquela cena, num salão pequeno e velho, no
fim da madrugada. Não havia plateia. Dispensavam testemunhas.
Seis e meia. A noite cedia espaço à manhã nublada.
Embora houvesse o desejo de ambos para que aquele som não terminasse, era hora de
recolher os equipamentos e encerrar a festa.
Eles nunca mais se veriam.
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