domingo, 1 de abril de 2012

Eles


Ela andava pelas ruas sem saber aonde ir. No caminho,  a lua,  a noite, pessoas gentis, perversas, indiferentes, engraçadas ou não.  Botequins, travestis, mendigos, vira-latas, jovens. Ratos, risos, baratas. Melancolia pelas ruas.  Poesia.  Misto de decadência e charme; sobretudo charme. 
Ela percorria as vielas de paralelepípedo, automaticamente. Olhava, mas não via; não sentia mais nada,  anestesiada pela dor. Até ser captada por um som, que vinha de longe. Seguiu o ritmo e aterrissou em uma festa, numa espécie de sobrado, onde não conhecia ninguém.
            Cinco horas da manhã e o local estava praticamente vazio. A maior parte das pessoas já havia ido embora. Mas não se importava com isso. Magnetizada pelo som, começou a dançar e a fazer uma espécie de performance. Não era só a melodia que a movia naquele lugar. O DJ também estava em êxtase. A música parecia nunca terminar. O flerte, também não. Nada merecia atenção naquele momento, além do sublime compartilhar do “sentir algo”.
Ela estava se desvencilhando de seus medos. Entregou-se. Eles transcendiam ouvindo aquele som. Era como se Ela estivesse se libertando de toda a sua dor, finalmente. Os dois não se conheciam, mas compreendiam um ao outro. Palavras não expressariam a beleza daquela cena, num salão pequeno e velho, no fim da madrugada. Não havia plateia. Dispensavam testemunhas.
         Seis e meia. A noite cedia espaço à manhã nublada. Embora houvesse o desejo de ambos para que aquele som não terminasse, era hora de recolher os equipamentos e encerrar a festa.
         Eles nunca mais se veriam.



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