segunda-feira, 9 de abril de 2012

Números

- Foram quantas vítimas?

- Dezenove mortos e doze feridos.
- Mas não eram quinze feridos?

- Dois morreram, aumentando o número de óbitos e, consequentemente, diminuindo o de feridos.
- Mas doze mais dois é igual a quatorze - disse o  chefe de redação ao repórter.
- Sim, mas como eu já havia falado a você mais cedo: não eram quinze. Eram quatorze feridos.
- Mas o coleguinha do telejornal deu quinze! 
- O outro suposto ferido passou mal quando viu o incêndio. Teve um mal súbito. Não ficou ferido com as chamas.
- Mas ele não desmaiou?
- Sim.
- E não se machucou?
- Foi mais o susto.  As pessoas perceberam que ia desmaiar e o seguraram.
- Mas o telejornal informou agora que ele ficou ferido! Se as outras emissoras estão contabilizando essa vítima nós teremos que rever a contagem e incluir esse ferido... 
- Mesmo que ele não tenha ficado ferido? Da maneira como esses jornalistas estão falando, dá a impressão de que ele foi mais um dos queimados. E não é o caso. Não vamos generalizar. Vamos ter que explicar isso.
- Mas ele não ficou ferido? 
- Já disse que não.  Eu vi que não.
- Vamos colocá-lo como um dos feridos. 
- O ferido “não - ferido”?
- O homem que desmaiou e que os coleguinhas contabilizaram como ferido.
- Recapitulando, então: eram quinze feridos; dois morreram, ficando treze.  O número de mortos, que era de dezessete, passou para dezenove. É isso o que pretendem informar? 
- Por enquanto, sim. Essa contagem só vai mudar se... A não ser que...
- A não ser o quê?
- A não ser que algum ferido morra. A mais provável para empacotar é aquela mulher grávida...
- A mulher não está grávida.
- Como assim “não está grávida”? O plantão do telejornal acabou de informar que a ferida está grávida.
- A repórter supôs isso e a maioria embarcou. A vítima estava apenas gorda; não é gravidez.
- Como você sabe?
- Se você não se lembra, sou repórter dessa empresa, na qual você também trabalha, e costumo checar as informações com responsabilidade, mesmo as relacionadas às pautas mais imbecis.
- Vamos fechar com essa contagem. Sobre a gestante, não vamos detalhar nada, então. Pode ser que ela realmente não esteja grávida...
- Já disse que a grávida não está grávida e que o ferido não está ferido.
- Existe algum morto que não esteja morto também?
-  Que eu saiba, não. Vou buscar um café.
- Jogo rápido. Volte logo para entrar ao vivo com a atualização do número de vítimas. Alguém pode morrer nos próximos minutos e ...

domingo, 1 de abril de 2012

Eles


Ela andava pelas ruas sem saber aonde ir. No caminho,  a lua,  a noite, pessoas gentis, perversas, indiferentes, engraçadas ou não.  Botequins, travestis, mendigos, vira-latas, jovens. Ratos, risos, baratas. Melancolia pelas ruas.  Poesia.  Misto de decadência e charme; sobretudo charme. 
Ela percorria as vielas de paralelepípedo, automaticamente. Olhava, mas não via; não sentia mais nada,  anestesiada pela dor. Até ser captada por um som, que vinha de longe. Seguiu o ritmo e aterrissou em uma festa, numa espécie de sobrado, onde não conhecia ninguém.
            Cinco horas da manhã e o local estava praticamente vazio. A maior parte das pessoas já havia ido embora. Mas não se importava com isso. Magnetizada pelo som, começou a dançar e a fazer uma espécie de performance. Não era só a melodia que a movia naquele lugar. O DJ também estava em êxtase. A música parecia nunca terminar. O flerte, também não. Nada merecia atenção naquele momento, além do sublime compartilhar do “sentir algo”.
Ela estava se desvencilhando de seus medos. Entregou-se. Eles transcendiam ouvindo aquele som. Era como se Ela estivesse se libertando de toda a sua dor, finalmente. Os dois não se conheciam, mas compreendiam um ao outro. Palavras não expressariam a beleza daquela cena, num salão pequeno e velho, no fim da madrugada. Não havia plateia. Dispensavam testemunhas.
         Seis e meia. A noite cedia espaço à manhã nublada. Embora houvesse o desejo de ambos para que aquele som não terminasse, era hora de recolher os equipamentos e encerrar a festa.
         Eles nunca mais se veriam.