Edésio tinha noção de que era um merda. Numa segunda-feira, foi ao trabalho cedo e recebeu a notícia de que deveria entrar pela
portaria ao lado. "Estão fazendo uma campanha aí, do Dia do Sorriso",
disse a recepcionista. Tentou se desvencilhar, subir pelos fundos, mas
foi recebido com um aconchego tão invasivo e artificial para uma empresa
multinacional, que chegava a ser constrangedor. Aplaudiram sua chegada e
lhe disseram que era muito importante para a equipe. "Sorria para a
foto", pediram, em tom falsamente cordial. Edésio fez pose, mostrou os
dentes (até os que não tinha) e congelou a expressão. Covarde que era,
chegou a levantar a plaquinha da campanha "Sorria: por uma vida melhor
no trabalho". Edésio sabia que era um merda, um infeliz. "Posso me
matar", pensava. Mas covarde era até para tirar a própria vida. Talvez
alguém pudesse executar o serviço por ele. Mas Edésio não teria dinheiro
para pagar o seu assassinato, já que era um funcionário de merda,
com um salário de merda, submetido a uma chefia de merda. Edésio era tão covarde,
mas tão covarde, que não rejeitava um só pedaço de bolo servido na
empresa, ainda que o aniversariante fosse um merda. Afinal de contas, ele
também era um merda. E merda por merda dá no mesmo. Olhava ao redor, no
escritório, e o que via era isso: um bando de merdas. Tentava pensar em
uma saída, mas acabava desistindo, covarde que era. Poderia largar tudo,
ir embora para uma cidade pacata, olhar o movimento de pessoas na
pracinha, vender picolés Creola e refazer a sua vida. Poderia ir para outro país, reinventar a
própria história, limpar privadas, quem sabe daria certo. Talvez
pudesse ser feliz em algum lugar frio. Achava que o calor emburrecia.
Mas Edésio era burro mesmo, chovesse ou fizesse sol. Jamais teria uma
ideia mirabolante para matar o seu chefe. Certamente alguém
descobriria. Edésio era de poucas palavras, o que o colocaria sob
suspeita. Já
havia cedido às pressões mercantilistas e era mais um trabalhador
igual a todos, facilmente substituível, ou seja: um funcionário de
merda. Pensava, às vezes, que era diferente dos outros colegas, mas não! Não podia se enganar; era um medíocre. E medíocre
que é medíocre faz bem o papel de medíocre. Edésio cumpria direitinho a sua
função, infeliz que era. Mas nada que um ansiolítico não resolvesse e o
fizesse esquecer de tudo por algumas horas, de merda.
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