segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Cotidiano

Edésio tinha noção de que era um merda. Numa segunda-feira, foi ao trabalho cedo e recebeu a notícia de que deveria entrar pela portaria ao lado. "Estão fazendo uma campanha aí, do Dia do Sorriso", disse a recepcionista. Tentou se desvencilhar, subir pelos fundos, mas foi recebido com um aconchego tão invasivo e artificial para uma empresa multinacional, que chegava a ser constrangedor. Aplaudiram sua chegada e lhe disseram que era muito importante para a equipe. "Sorria para a foto", pediram, em tom falsamente cordial. Edésio fez pose, mostrou os dentes (até os que não tinha) e congelou a expressão. Covarde que era, chegou a levantar a plaquinha da campanha "Sorria: por uma vida melhor no trabalho".  Edésio sabia que era um merda, um infeliz. "Posso me matar", pensava. Mas covarde era até para tirar a própria vida. Talvez alguém pudesse executar o serviço por ele. Mas Edésio não teria dinheiro para pagar o seu assassinato, já que era um funcionário de merda, com um salário de merda, submetido a uma chefia de merda. Edésio era tão covarde, mas tão covarde, que não rejeitava um só pedaço de bolo servido na empresa, ainda que o aniversariante fosse um merda. Afinal de contas, ele também era um merda. E merda por merda dá no mesmo. Olhava ao redor, no escritório, e o que via era isso: um bando de merdas. Tentava pensar em uma saída, mas acabava desistindo, covarde que era. Poderia largar tudo, ir embora para uma cidade pacata, olhar o movimento de pessoas na pracinha, vender picolés Creola e refazer a sua vida. Poderia ir para outro país, reinventar a própria história, limpar privadas, quem sabe daria certo. Talvez pudesse ser feliz em algum lugar frio. Achava que o calor emburrecia. Mas Edésio era burro mesmo, chovesse ou fizesse sol. Jamais teria uma ideia mirabolante para matar o seu chefe. Certamente alguém descobriria. Edésio era de poucas palavras, o que o colocaria sob suspeita. Já havia cedido às pressões mercantilistas e era mais um trabalhador igual a todos, facilmente substituível, ou seja: um funcionário de merda. Pensava, às vezes, que era diferente dos outros colegas, mas não! Não podia se enganar; era um medíocre. E medíocre que é medíocre faz bem o papel de medíocre. Edésio cumpria direitinho a sua função, infeliz que era. Mas nada que um ansiolítico não resolvesse e o fizesse esquecer de tudo por algumas horas, de merda.

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